através da janela do trem me perdi em tempos obliquos.
o meu reflexo na janela envidraçada me envelhecia.
nas passagens dos tuneis fui transportado em medos deslocados.
as curvas me faziam olhar a máquina que me levava,
nas retas, imaginei que não me restava muita coisa do que já fui.
fitava os barrancos com a supresa de menino que reconhece aos poucos a altura.
o balanço me fez pensar em ter saudades tuas.
então perdi as perspectivas e proporções.
e percebi o quão éramos próximos apesar dos espaços deslocados.
e o quanto não éramos.
fiz meu ombro se acomodar no banco de madeira desconfortável
para ter a melhor posição até o termino da viagem.
pensei em ti algumas vezes e a paisagem foi mudando de cor, saturando.
sinto saudades.
a distância faz a montanha ficar azul.
sábado, outubro 3
sexta-feira, outubro 2
o filho e o pai
o pai sonhou em ser engenheiro, advogado, jogador de futebol, artista de cinema e televisão, jornalista, médico, astronauta, delegado, tudo que para que seu filho sonhado fosse grande.
o filho real ficou grande ao descobrir os sonhos do pai e sonhar os próprios para seu próprio filho.
o filho real ficou grande ao descobrir os sonhos do pai e sonhar os próprios para seu próprio filho.
. os noivos .
eles eram noivos, mas de ninguém.
ela tinha este jeito cuidadoso de manter as noticias frescas e preparativos. ele sabia planejar muitos futuros. ela aprendeu com calma os cuidados que a manterão longe de muitos problemas. ele já desistiu das viagens e investiu em documentos. há quem faça para ela um vestido branco, mas simples. ele tem bons amigos para padrinhos.
eles não se conheciam, mas como formavam um casal bonito! alguns amigos comum já pensaram em apresentá-los. mas havia sempre algo terrestre que impedisse. as horas, o trânsito, a indisposição, o fim das relações ou o começo.
mas hoje fez um céu festivamente azul e no flutuar das vivências, alguém resolveu pintá-los encontrados. e eles se casaram e deixaram que retocassem seus noivados.
não sei qual dos dois sorriu e qual chorou.
quarta-feira, setembro 23
. ela mesma .
eu sempre peço para as pessoas que vão para longe que mandem postais. talvez eu acredite que fazer algo tão clichê seja um modo de observar o mecanismo do mundo funcionando. as centenas de cópias da mesma foto com legendas. o espaço do selo. a pequena área para contar sinteticamente o que os olhos acreditam eterno. um pequeno suspiro para pensar nas palavras que melhor serão recebidas pelo remetente. o carimbo indicando a moeda local.
é um pedido para que pense em mim em um momento tão singular na vida. é também uma oportunidade para quem pudesse se sentir meio tolo em enviar cartões postais em época de imagens digitais. gosto de pensar que todos os postais querem me convencer para partir também.
mas a minha cabeça não é tão boa para essas coisas. viajo muito na cabeça e coração. mas o espaço das fronteiras me angustiam um pouco. acho que é porque me dá uma sensação ainda maior de que compreendo muito pouco tudo que me rodeia.
viajo amanhã. nem é tão longe. o lugar e a pessoa. estou um pouco ansioso, confesso. é um mundo que conheço mas nunca vi. tenho comigo que cumpro uma promessa e gosto de pagar promessas quando é um jeito de acredita melhor.
vou passar em bancas para ver postais. perguntarei preços de selos.
mas chegarei antes.
é um pedido para que pense em mim em um momento tão singular na vida. é também uma oportunidade para quem pudesse se sentir meio tolo em enviar cartões postais em época de imagens digitais. gosto de pensar que todos os postais querem me convencer para partir também.
mas a minha cabeça não é tão boa para essas coisas. viajo muito na cabeça e coração. mas o espaço das fronteiras me angustiam um pouco. acho que é porque me dá uma sensação ainda maior de que compreendo muito pouco tudo que me rodeia.
viajo amanhã. nem é tão longe. o lugar e a pessoa. estou um pouco ansioso, confesso. é um mundo que conheço mas nunca vi. tenho comigo que cumpro uma promessa e gosto de pagar promessas quando é um jeito de acredita melhor.
vou passar em bancas para ver postais. perguntarei preços de selos.
mas chegarei antes.
sábado, setembro 19
domingo, setembro 13
. heartland .
um coraçãozinho que morava só saiu para rua para dizer que era sua também aquela rua. que, embora não parecesse, aqueles postes também iluminavam a sua volta para casa segura e como todas as outras casas, a sua também tinha um número para identificação dos correios e que também poderia ser referenciado como a casa da rua tal perto da praça tal.
aliás, aquela rua daria numa praça que também ele adentraria e que também ali estariam outros coraçãozinhos como ele, ávidos para dizer as coisas que atormentam o verbo e o pertencimento.
e que dentro dos coraçãozinhos haveria seres humanos distraídos e ignorantes ao amor.
aliás, aquela rua daria numa praça que também ele adentraria e que também ali estariam outros coraçãozinhos como ele, ávidos para dizer as coisas que atormentam o verbo e o pertencimento.
e que dentro dos coraçãozinhos haveria seres humanos distraídos e ignorantes ao amor.
quinta-feira, setembro 10
marcela
marcela aproveitava o intervalo entre suas crises de asma e amores para transformar verbos intransitivos em transitivos.
terça-feira, setembro 8
tempo e voz
o homem trouxe café naqueles copos plásticos com tampa. com leite em espuma para ela, puro para ele. sentou-se ao lado dela naquele banco voltado para uma vista deficiente da paisagem que se imagina tão bonita. a mulher acabara um telefonema e estava enviando uma mensagem, provavelmente para seu secretário.
-- um minuto, marcelo.
ele esperou pacientemente. tomou um pequeno gole de seu café. assim que ela terminou, também abriu a tampa de seu copo e com um sorriso de agradecimento também tomou seu gole cumprindo um tratado qualquer sobre cafés em comum.
-- diga, marcelo.
ele pegou sua mão e ela teve uma hesitação. o telefone dela tocou e ela se achou salva. levantou-se e foi para um canto. alguém a chamava com urgência no trabalho. ele compreendeu e apontou o ponto mais próximo de táxi.
-- venha a minha casa semana que vem e conversamos melhor.
ela o abraçou fortemente a medida que achou que pudesse compensar uma falta. satisfeita e aliviada, foi embora.
ele também não se incomodou tanto. teria mais tempo para ensaiar seu pequeno pedido. bebeu um pouco do café que ela havia deixado e começou:
-- gostaria de falar das coisas que tem me atormentado, das minhas inquietações sobre a natureza do mundo. como conversávamos antes. na época que tinhamos incomôdos semelhantes e você me ouvia bem. e eu sabia lhe dizer as coisas com humor...
achou-se tolo. talvez fosse melhor escrever. na certa, ela não leria. não teria tempo. desistiu da idéia. levantou-se para ir embora quando o seu telefone tocou. ela falou baixinho:
-- marcelo, não vai acreditar. o motorista do meu táxi tem a voz igualzinha a sua. ouve só.
e colocou o motorista na linha. ele não concordou que tivessem vozes parecidas, mas achou graça da ligação.
-- marcelo, ele estava contando que plantava café, veja só. por que você não me conta mais as coisas?
-- eu...
-- você é engraçado, tenho saudades suas às vezes.
-- às vezes?
e conversaram até que ela chegasse na empresa. e naquela noite conversaram sobre o que lhes afligia. ela dormiu na casa dele porque o dia seguinte era domingo: dia para se inventar tempos.
-- um minuto, marcelo.
ele esperou pacientemente. tomou um pequeno gole de seu café. assim que ela terminou, também abriu a tampa de seu copo e com um sorriso de agradecimento também tomou seu gole cumprindo um tratado qualquer sobre cafés em comum.
-- diga, marcelo.
ele pegou sua mão e ela teve uma hesitação. o telefone dela tocou e ela se achou salva. levantou-se e foi para um canto. alguém a chamava com urgência no trabalho. ele compreendeu e apontou o ponto mais próximo de táxi.
-- venha a minha casa semana que vem e conversamos melhor.
ela o abraçou fortemente a medida que achou que pudesse compensar uma falta. satisfeita e aliviada, foi embora.
ele também não se incomodou tanto. teria mais tempo para ensaiar seu pequeno pedido. bebeu um pouco do café que ela havia deixado e começou:
-- gostaria de falar das coisas que tem me atormentado, das minhas inquietações sobre a natureza do mundo. como conversávamos antes. na época que tinhamos incomôdos semelhantes e você me ouvia bem. e eu sabia lhe dizer as coisas com humor...
achou-se tolo. talvez fosse melhor escrever. na certa, ela não leria. não teria tempo. desistiu da idéia. levantou-se para ir embora quando o seu telefone tocou. ela falou baixinho:
-- marcelo, não vai acreditar. o motorista do meu táxi tem a voz igualzinha a sua. ouve só.
e colocou o motorista na linha. ele não concordou que tivessem vozes parecidas, mas achou graça da ligação.
-- marcelo, ele estava contando que plantava café, veja só. por que você não me conta mais as coisas?
-- eu...
-- você é engraçado, tenho saudades suas às vezes.
-- às vezes?
e conversaram até que ela chegasse na empresa. e naquela noite conversaram sobre o que lhes afligia. ela dormiu na casa dele porque o dia seguinte era domingo: dia para se inventar tempos.
sexta-feira, setembro 4
bela adormecida
no vagão em que viajo, há inúmeras belas adormecidas.
adormeceram pelo cansaço do dia, pelo entusiamos necessário do dia seguinte, pela possibilidade de retomada de um sonho bom com véspera de infinitude, para amenizar dor causada ou sofrida.
seus príncipes, se há, sonham que estão despertos e em vigília pelas suas amadas.
e o beijo está perdido nas escadas rolantes, plataformas de embarque e desembarque, sinais, túneis, avisos sonoros e saídas de emergência.
perdido como inflexão dos que procuram e dos que aguardam.
de repente, uma delas desperta. um pouco sonolenta, estranha a vastidão das que dormem. fica pequena, mas não consegue retomar o caminho do sono. observa as estações: tão longe.
desço no paraíso e a última imagem que vejo é ela enquadrada pela janela do vagão, como um cinema, tentando compreender a linguagem física das respirações e dos sonhos.
adormeceram pelo cansaço do dia, pelo entusiamos necessário do dia seguinte, pela possibilidade de retomada de um sonho bom com véspera de infinitude, para amenizar dor causada ou sofrida.
seus príncipes, se há, sonham que estão despertos e em vigília pelas suas amadas.
e o beijo está perdido nas escadas rolantes, plataformas de embarque e desembarque, sinais, túneis, avisos sonoros e saídas de emergência.
perdido como inflexão dos que procuram e dos que aguardam.
de repente, uma delas desperta. um pouco sonolenta, estranha a vastidão das que dormem. fica pequena, mas não consegue retomar o caminho do sono. observa as estações: tão longe.
desço no paraíso e a última imagem que vejo é ela enquadrada pela janela do vagão, como um cinema, tentando compreender a linguagem física das respirações e dos sonhos.
segunda-feira, agosto 31
quarta-feira, agosto 26
. mariana blues .
quero agradecer a todas as críticas, sugestões e elogias pela edição do livro. fiquei muito feliz com todas as manifestações. daqui a cinco anos tem outro!
terça-feira, agosto 25
os ângulos
existe um ângulo pelo qual te observo com uma inquietude deslocada. é um ângulo que te deixa bela de uma forma que não sei fundamentar. por meses, achei que seria através dele que me apaixonaria.
então percebi que este ângulo se assemelhava aos que as aeroespaçonaves inclinam em sua aventura de reentrada na atmosfera para voltar para casa.
então percebi que este ângulo se assemelhava aos que as aeroespaçonaves inclinam em sua aventura de reentrada na atmosfera para voltar para casa.
domingo, agosto 23
o clube das cartas diáfanas
quando kiomi chegou em tsurumi, foi a uma loja comprar papel, envelope e caneta para uma carta que contasse as boas novas.
ao chegar em casa, descobriu que as folhas por trás do pacote com um belo desenho de avião pareciam seda de tão finas e delicadas que eram. raciocinou que eram para baratear o peso em gramas de suas palavras. concordou que era um bom artíficio.
escreveu seis páginas e encontrou dificuldade para que a caneta não borrasse o papel. e quando juntou as três folhas percebeu o quão transparente eram ao ver suas palavras misturando umas às outras.
e assim suas outras cartas se tornaram enigmas para montar, sobrepondo e refazendo significados. em tempos assumiu desenhos; de ideogramas e finalmente as próprias manchas.
os destinatários divertiam-se e logo promoveram encontros quando descobriram que as cartas entre si também dialogavam.
até que as cartas começaram a ficar rarefeitas. as letras, mais fracas. as manchas tomaram conta.
no outono, o clube das cartas diáfanas se reuniu uma última vez e decifrou a seguinte mensagem:
"descobri o abismo entre a saudade e a falta. vai além das palavras voltar e partir. mas repousa na transparência destas correspondências".
o clube agora procura por suas cartas em resposta.
segunda-feira, agosto 17
neusa
neusa não era baiana, mas desfilava na ala de sua escola. nos domingos, dessalgava a carne e cortava o toucinho, mas o tempero deixava para outras a feijoada de quadra.
era pelas mãos de neusa que as cobrachas se aposentavam para ser baianas. a dobra do turbante, a costura dos adereços mínimos, colares, quitutes e temperos básicos.
-- não carregue bandejas. erga as mãos em agradecimento e celebração. depois gire como a ordem natural das coisas. dizia ela às mais novas.
cleide, que acabara de ingressar ao grupo e era a mais bela cabrocha de seu tempo, ao tomar uma repreenda de uma das baianas por querer costurar as franjas de sua antiga vestimenta, foi ter com neusa:
-- dona neusa, a senhora não tem saudades dos tempos de passista?
ela sorriu um pouco e respondeu:
-- cleide, eu nunca fui passista. desde pequena sempre quis ser baiana. a tragédia do carnaval para mim nunca foi a quarta-feira de cinzas. mas nunca caber nestas saias. quando consegui rodar sem que se arrastassem pelo chão, nunca quis mais que parassem.
-- então como consegue dançar com tanta alegria se não sambou como as cabrochas?
-- ah, isso veio com as saias.
era pelas mãos de neusa que as cobrachas se aposentavam para ser baianas. a dobra do turbante, a costura dos adereços mínimos, colares, quitutes e temperos básicos.
-- não carregue bandejas. erga as mãos em agradecimento e celebração. depois gire como a ordem natural das coisas. dizia ela às mais novas.
cleide, que acabara de ingressar ao grupo e era a mais bela cabrocha de seu tempo, ao tomar uma repreenda de uma das baianas por querer costurar as franjas de sua antiga vestimenta, foi ter com neusa:
-- dona neusa, a senhora não tem saudades dos tempos de passista?
ela sorriu um pouco e respondeu:
-- cleide, eu nunca fui passista. desde pequena sempre quis ser baiana. a tragédia do carnaval para mim nunca foi a quarta-feira de cinzas. mas nunca caber nestas saias. quando consegui rodar sem que se arrastassem pelo chão, nunca quis mais que parassem.
-- então como consegue dançar com tanta alegria se não sambou como as cabrochas?
-- ah, isso veio com as saias.
sábado, agosto 15
terça-feira, agosto 11
x-men
meu coração é wolverine.
dói um bocado quando se fere,
mas fica como novo depois de partir.
é tão só.
e tão sem passado.
e apaixonado pelas coisas impossíveis.
não envelhece muito
e comete as mesmas burradas,
porque sabe que se recupera rápido.
só me pergunto:
para que tanto adamantinum?
dói um bocado quando se fere,
mas fica como novo depois de partir.
é tão só.
e tão sem passado.
e apaixonado pelas coisas impossíveis.
não envelhece muito
e comete as mesmas burradas,
porque sabe que se recupera rápido.
só me pergunto:
para que tanto adamantinum?
domingo, agosto 9
. pb .
a fotografia se formando na química do revelador
parece uma piscina sem volta,
como se mergulhasse em tempos perdidos
nos quais a cor é apenas uma lembrança.
parece uma piscina sem volta,
como se mergulhasse em tempos perdidos
nos quais a cor é apenas uma lembrança.
sábado, agosto 8
terça-feira, agosto 4
. vazio .
toda vez que ela vai embora, deixa de presente um vazio que vou preenchendo sem afobação para acostumar a saudade com a falta.
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