segunda-feira, agosto 31

. rafaela .

rafaela gostaria de reencarnar como avião: cheia de ciência dos homens.

quarta-feira, agosto 26

. mariana blues .

quero agradecer a todas as críticas, sugestões e elogias pela edição do livro. fiquei muito feliz com todas as manifestações. daqui a cinco anos tem outro!

terça-feira, agosto 25

os ângulos

existe um ângulo pelo qual te observo com uma inquietude deslocada. é um ângulo que te deixa bela de uma forma que não sei fundamentar. por meses, achei que seria através dele que me apaixonaria.

então percebi que este ângulo se assemelhava aos que as aeroespaçonaves inclinam em sua aventura de reentrada na atmosfera para voltar para casa.

domingo, agosto 23

o clube das cartas diáfanas

quando kiomi chegou em tsurumi, foi a uma loja comprar papel, envelope e caneta para uma carta que contasse as boas novas.

ao chegar em casa, descobriu que as folhas por trás do pacote com um belo desenho de avião pareciam seda de tão finas e delicadas que eram. raciocinou que eram para baratear o peso em gramas de suas palavras. concordou que era um bom artíficio.

escreveu seis páginas e encontrou dificuldade para que a caneta não borrasse o papel. e quando juntou as três folhas percebeu o quão transparente eram ao ver suas palavras misturando umas às outras.

e assim suas outras cartas se tornaram enigmas para montar, sobrepondo e refazendo significados. em tempos assumiu desenhos; de ideogramas e finalmente as próprias manchas.

os destinatários divertiam-se e logo promoveram encontros quando descobriram que as cartas entre si também dialogavam.

até que as cartas começaram a ficar rarefeitas. as letras, mais fracas. as manchas tomaram conta.

no outono, o clube das cartas diáfanas se reuniu uma última vez e decifrou a seguinte mensagem:

"descobri o abismo entre a saudade e a falta. vai além das palavras voltar e partir. mas repousa na transparência destas correspondências".

o clube agora procura por suas cartas em resposta.

segunda-feira, agosto 17

neusa

neusa não era baiana, mas desfilava na ala de sua escola. nos domingos, dessalgava a carne e cortava o toucinho, mas o tempero deixava para outras a feijoada de quadra.

era pelas mãos de neusa que as cobrachas se aposentavam para ser baianas. a dobra do turbante, a costura dos adereços mínimos, colares, quitutes e temperos básicos.

-- não carregue bandejas. erga as mãos em agradecimento e celebração. depois gire como a ordem natural das coisas. dizia ela às mais novas.

cleide, que acabara de ingressar ao grupo e era a mais bela cabrocha de seu tempo, ao tomar uma repreenda de uma das baianas por querer costurar as franjas de sua antiga vestimenta, foi ter com neusa:

-- dona neusa, a senhora não tem saudades dos tempos de passista?

ela sorriu um pouco e respondeu:

-- cleide, eu nunca fui passista. desde pequena sempre quis ser baiana. a tragédia do carnaval para mim nunca foi a quarta-feira de cinzas. mas nunca caber nestas saias. quando consegui rodar sem que se arrastassem pelo chão, nunca quis mais que parassem.

-- então como consegue dançar com tanta alegria se não sambou como as cabrochas?

-- ah, isso veio com as saias.

sábado, agosto 15

moleskine

no meu moleskine, as idéias soam mais bonitas.
mas não passam de idéias.

terça-feira, agosto 11

x-men

meu coração é wolverine.
dói um bocado quando se fere,
mas fica como novo depois de partir.

é tão só.
e tão sem passado.
e apaixonado pelas coisas impossíveis.
não envelhece muito
e comete as mesmas burradas,
porque sabe que se recupera rápido.

só me pergunto:
para que tanto adamantinum?

domingo, agosto 9

. pb .

a fotografia se formando na química do revelador
parece uma piscina sem volta,
como se mergulhasse em tempos perdidos
nos quais a cor é apenas uma lembrança.

sábado, agosto 8

. desilusão .

nós sempre procurando motivos para ficar.
a vida sempre dando razões para partir.

terça-feira, agosto 4

. vazio .

toda vez que ela vai embora, deixa de presente um vazio que vou preenchendo sem afobação para acostumar a saudade com a falta.

quinta-feira, julho 30

rocinante

virou-se para mim, tirou uma sujeira da minha bochecha e disse:

-- você é um dom quixote, embora você insista em ser meu sancho pança.

domingo, julho 26

landscape dreams

na fotografia que vejo, não sei o que seus olhos focam para além do que vejo.
e nesta região imprecisa, construo um espelho cheio de angulos,
tentando refazer o corte que o fotografama fez linguagem.

continuo vendo a foto procurando algo que deixei passar.
e me conveço aos poucos e com certa melancolia
que deixei passar você.

terça-feira, julho 21

:: pequenos prazeres

Um copo d'água gelada antes de sentar na parte que mais gosto do sofá, bem ao lado da janela, e cobrir os pés com a manta amarela para ler as correspondências. Antes ainda, um cheque para deixar na portaria amanhã pela manhã. Amanhã é dia de receber a cesta de orgânicos pela primeira vez e ando ansiosa com as comprinhas. Alfaces, tomatinhos, iogurtes assim e assado, frutas e legumes e afins lá do Caminho da Roça.

E então, no meio das contas, tinha uma carta dele. Ele sempre foi a favor das cartas. Das cartas escritas à mão. Um envelope maior do que o normal, também escrito à mão, como se, dentro daquilo, viesse ele. E foi mais ou menos assim. No envelope, "Mariana Blues". Mais de uma vez eu senti que o que eu mais queria era um livro dele para a minha cabeceira. E, de repente, chegou. E então, vou deitar mais calma, com a luz do abajur sobre as páginas de seu primeiro livro. As poesias e as prosas que eu li e reli tantas vezes e tive vontade de grifar.

Mais um copo d'água gelada, escova de dentes, pijama de inverno, mochila fechada e eu vou lá para o mundo dele para entender melhor o meu. Boa noite, durma bem e obrigada pelo presente. Antes de adormecer, vou apoiar suas páginas ao lado dos livros de Clarice, que insisto em deixar bem próximos ao travesseiro da esquerda."

LuFec

thanks, lu!

domingo, julho 19

esquecer

existe uma versão do verbo esquecer que minimiza o verbo lembrar. age próximo ao seguir a diante e soa como deixar para trás.

porque esquecer requer algo além de um compreensão imprecisa.
requer um não conhecimento.
requer um deixar reconhecer.

alguém disse uma vez que havia uma doença que fazia o esquecimento nas pessoas.
e um outro alguém que avisou que esquecer podia ser uma espécie de cura.

talvez sejam só pessoas tentando viver as coisas lembradas.

sexta-feira, julho 10

. mariana blues .

os livros chegaram. já estou enviando. por favor, avisem recebimento.

segunda-feira, julho 6

nina simone

ontem ela me ligou chamando para sair. deduzi que estava só novamente. em sua cabeça, ela tem delineado muito bem o mundo dos acompanhados e dos desacompanhados. normalmente essas duas raças não se falam, só quando decidem entre eles mudar de lado.

muitas vezes paramos em algum lugar e procuramos nos mp3 alguma música da nina simone para dividirmos o fone de ouvido. ela me diz que a nina simone ela só ouve comigo e mais ninguém. achei bonito, mas meio sem sentido.

ontem lhe disse que já ouvi nina simone com outras pessoas. acho que ela ficou magoada. talvez achasse que a nina era algo que tinha de comum entre nós. mas nina simone está além de nós, comentei. ela deve destroçar mais corações além do nosso. deve ser uma missão divina dela.

passei o dia hoje tentando me convencer que talvez tenha sido insensível em não ter algo comum a ela, como ela tinha a nina simone comigo. mas daqui a pouco ela volta para as terras-médias e volta a ser acompanhada.

é bacana ouvir a nina simone acompanhado.

domingo, julho 5

. contador .

é que as histórias deixam a vida mais suportável.

sábado, julho 4

. control .

são dias sem sentido assim que o coração desacelera
e as criaturas adormecidas em mim
resmungam e querem deixar de ser.

domingo, junho 28

sonhos

foi-se a tarde, chega a noite dos sonhos perdidos.
sonho um de cada vez, vou perdendo um de cada vez.
esvaidos que vão sendo pela trajetória do corpo.
a noite ameniza os suores da tarde que passou,
mas quis ficar como uma tarde sonhada.

quarta-feira, junho 24

minha foto do jardim de inverno

todos tem aquela foto fundamental
de um jardim de inverno.
a representação de um tempo,
lugar
ou pessoa
que nos indica nosso próprio calor
a ventadas frias.

e de quando em quando,
voltamos a esta fotografia.
percebemos as qualidades do papel
e das químicas que imprimem a imagem.
uma pequena ação do tempo nos alenta
o quão longe se passou aquele instante.
mas nos arrebata de repente
as dores invernais que fizeram daquela foto de jardim
a foto de jardim de inverno.

depois, guardamos.
e esperamos novas estações
para confundirmos tantos invernos
àquele da fotografia.

e os invernos tiram nossas fotografias
para testemunhar nossas transformações
e ver o que ficou crivado em nossa pele
das suas outras irmãs estações.