sexta-feira, julho 25

segunda-feira, julho 21

mercedez

mercedez aprendeu a andar tarde e talvez por isso o som dos passos lhe tenha abandonado: esperou e cansou.

assim, quando ganhou seu primeiro par de sapatos, seus pais estranharam que não fizessem som algum:

- é muito magra. parece pena. precisa comer mais.

aos 12, foi chamada de assombração porque chegava aos lugares sem ser notada e saía sem que ninguém protestasse. começou a agir como um.

andava pela cidade e ninguém prestava atenção. trombavam. os poucos amigos que tinha lhe sugeriram roupas extravagantes, mas mercedez não gostava.

aos 15 foi descoberta por um coreógrafo que ficou surpreendido com o fato:

-- é de uma beleza impar.

ela não sabia se saberia dançar. mas seu pai achou coerente e benéfico que a filha tivesse atividades que a fizesse movimentar. foi que em uma das aulas aconteceu algo que fez mercedez ter uma idéia: enquanto ensaiava uma coreografia, percebeu que o sincronismo dos movimentos com as outras meninas soava que os passos, saltos e giros fossem seus de fato. assim quando saiu da aula, começou a prestar atenção nos passos alheios e sincronizá-los aos seus.

aos 18 conheceu seu primeiro amor. era um sambista novo que a viu nesta empreitada estranha numa praça.

- você é a batida que falta, deixe-se sincopar.

então mercedez de quando em quando atravasava ou adiantava um passo.

o sambista foi para o estrangeiro ser mais brasileiro. então mercedez voltou aos passos habituais com um choro triste mas exato.

mercedez fez isso até ontem. deste modo esteve em milhares de sons porque só o som dos passos não lhe cabiam mais.

hoje, sozinha, levantou e se deixou levar ao som de seu coração.

superman

há um episódio de "liga da justiça" no qual superman recebe um presente sombrio: uma planta alienígena que em contato com a pele deixa o preso em um sono no qual é realizado o mais querido sonho.

superman observa seu filho, mulher e pai em kripton, sua casa. mas algo está errado. não é assim que devia ser.

superman que sucumbe aos desejos.
o amor pelo filho que não existe.
o sonho tão cruel quanto a realidade.

. balão .

eu olho para a menina cuja felicidade ao ver o balão é imensa.
imensos também são seus pulmões que não descobriram ainda que todo seu ar, cheio de matéria queimada de coisa viva, não vai levantar um balão.

depois, vejo-me imenso ao perceber que ela sim é quem sabe flutuar.

. rotação .

e o que há em mim que faz a gravidade durar tanto a noite de dentro?

domingo, julho 20

. funhouse .

nesta noite de corações partidos, o que posso te oferecer é um queijo.

sexta-feira, julho 18

carolina

carolina já tem mais de 30, mas seu amor esqueceu de envelhecer. mulher de muitos casos, tem poucos amores ou talvez tenha apenas um que troca de roupa e parece outro. as estações passam, o ar rareia e o cabelo muda.

o amor vive outro tempo. na suspensão de uma felicidade que chega, não avisa e parte.

sábado, julho 12

. fernanda .

hoje recebi 3 visitas. a primeira foi do fantasma dos assuntos inacabados. alertou-me que a findança é ritmo. o fantasma deixou a conversa pela metade. a segunda foi a chuva que apenas deixou bolinhos. a terceira foi fernanda que praticou carícias na minha cabeleira enquanto eu lhe sussurrava poemas leitosos. minha perna ficou dormente e ela achou graça dos meus tombos.

depois fiquei só; absorto, tentando descobrir quem era fantasma, chuva ou fernanda.

. céu de chagall .

hoje, ao sair de casa, olhei para o céu e pensei em como chagall pintaria: dividiria o cinza e o azul com uma linha sinuosa ou desenharia um galo multicor?

. teoria da conspiração .

entre 2000 e 2006, eu pensava que isabel era uma. de manhã, a caminho do ponto de ônibus, eu a via abrir a única floricultura do bairro. a noite, quando eu voltava do trabalho, ela fechava um modesto salão de cabelereiro. entre 2000 e 2006, sempre achei que historicamente o arranjo de flores tinha o mesmo sema de cortar cabelos.

de manhã era sempre muito simpática ao retribuir o meu bom dia. de noite, respondia de forma tímida e desconfiada meu boa noite. mas a noite eu sempre fui outra pessoa.

mas em 2006, a floricultura fechou. o dono manteve somente a loja do cemitério - ao que parece os mortos pagam melhor. desde então, a noite isabel começou a me cumprimentar melhor como se o dia tivesse se invertido com a noite ou como se o dia sempre lhe houvesse roubado o frescor durante o seu andamento.

soube mais tarde que não era eu que era outro quando a noite caia, mas que isabel tinha uma irmã gêmea que era cabelereira. com o fechamento da floricultura, isabel mudou-se para mogi das cruzes onde cultiva bromélias.

mas isso não explica a súbita mudança de selma, a irmã noturna.

em 2008, já elaborei 3 teorias sobre o assunto: 1. não foi selma que ficou, foi sua irmã que sempre quis ser cabelereira; 2. um namorado violento de isabel tentou matá-la e selma aproveitou a oportunidade para se fazer morta e trocar de lugar com isabel e ambas iniciaram vida nova; 3. talvez isabel fosse flor tão imensa que fez sombra a selma. com a ida da irmã para mogi, selma foi descobrindo o sol e desabotou.

o leitor que teorize também.

sexta-feira, julho 11

beijo

aquele beijo que deu em minha testa desejando coisas boas foi tão pouco que nem desejo.

segunda-feira, julho 7

. love love love .

havia um manto sobre a cidade que eu chamava de amor.
flutuavam os enamorados na densidade esquiva do amor.
procurando a unidade e o trânsito dos que não sabiam o amor.

. madrugada .

cold case é um seriado sobre fantasmas.

domingo, julho 6

be kind rewind - michel gondry

sempre desconfiei da política de autores no cinema. não que a considere inexistente, mas como tem sido discutida desde bazin sempre me soou um pouco ingênua. é bastante claro que o diretor de um filme imprime bastante o tom nos filmes que dirige, mas a autoria coletiva sempre me soou mais rico.

toda via, tenho que confessar, que espero com bastante ansiedade pelos novos projetos de michel gondry. se há um cinema de autor atualmente, em michel gondry ele encontra uma das suas maiores vertentes.

"be kind rewind", o último trabalho de gondry é genial. em uma única fita, ele consegue colocar na mesa a questão do impreviso do jazz, o jazz como fundamento da história cultural americana, o cinema como lugar de invenção e encontro, a questão da autoria e a industria de entreterimento, o universo pop do cinema americano e a trucagem como artesanato para a invenção dos sonhos, tal como seu compatriota, mélies.

pode parecer muitas questões sérias para um único filme, mas ao contrário de "the science of sleep", o roteiro é tipicamente americano com seus conflitos, ápices, descansos e final redentor, ou quase.

eu havia comentado com uns amigos que não gostaram muito de "the science of sleep" em comparação a "eternal sunshine" que embora o roteiro não seja tão genial quanto de kauffmann, há algo em "science" que é um passo a frente de "eternal", mas não sabia o que era. "be kind rewind" confirma uma direção.

quarta-feira, julho 2