segunda-feira, dezembro 29

parachutes filmes online!

* a lenta capta, o coração edita


pretendemos rodar 6 projetos ano que vem! 

(isso que é promessa de ano-novo)

sexta-feira, dezembro 26

the tempest

we are such stuff,as dreams are made on, and our little life is rounded with a sleep.

shakespeare

. ano novo .

já é o segundo ano que vejo o novo ano como uma continuação. não que seja ruim. é como se os sonhos se organizassem e viessem a mim com paciência e calma. o tempo necessário para escolher cores e pintá-los.

tempo necessário para enxergar coisas invisíveis.

terça-feira, dezembro 23

feijão

tenente jonas contou-me esta história em um treinamento para brigadista:

"-- a época de natal é muito estranha. todo ano alguém morre de feijão e solidão.
-- feijão?
-- sim. a demora de se cozinhar o feijão faz com que ele seja preparado primeiro. mas as pessoas que moram só, numa cidade como esta, cansadas, às vezes acabam dormindo enquanto esperam. o feijão se queima e exala monóxido de carbono que é letal. mata sem que se perceba.
-- nossa, que triste.
-- o mais triste é que todos sempre deixam o arroz já lavado."

segunda-feira, dezembro 22

2009

é o ano para enfrentar velhos fantasmas.
o ano para reinventar o fantasma.

quinta-feira, dezembro 18

. espera .

-- é que eu acho realmente que essas coisas abandonadas por nós acabam nos retornando com assombros. não há sempre o horror, há também uma volta com delicadeza, com outros sentimentos ou os mesmos mas antes imperceptíveis. e esta é a minha dificuldade: tendo esperança que voltem, eu, no fundo, não consigo abandoná-las.

-- então não as abandone. deixe que elas te abandonem. é mais fácil para quem não espera.

terça-feira, dezembro 9

. solidão .

eu escrevo coisas que a solidão me sussurra.
e escrevo torto e de propósito
para que ela desista de mim
e escreva por si só.

sábado, dezembro 6

. estar lá .

juliana sempre teve um porto seguro: joão. toda vez que se sentia mal ou que a vida lhe dava uma rasteira, o apartamento 23 de um prédio na rua lisbonera era um lugar para se estar. joão sempre lhe abriu a porta e cada vez que ia havia chás e essências diferentes.

que lembrasse um cheiro nunca se repetiu e não se lembrava de ter ido sem que tivesse motivo de tristeza.

até que hoje, depois de pensar em seus falidos amores, foi ter com joão. mas ele não estava mais lá. havia se mudado.

foi então que percebeu que seu porto era o coração de joão. e pior que enfrentar tempestades é não ter para onde voltar.

segunda-feira, dezembro 1

madrugada

era madrugada, estava inquieto. fui para sala porque podia-se ver a rua. deserta e cheia de silêncio. observei as luzes dos postes, inúteis.

ela veio do quarto, sonolenta. não disse nada, esperou que eu falasse.

-- olhe estes postes, inúteis, para que iluminam tanto?

-- te trouxeram até a sala, te levaram de mim, já é alguma coisa, não?

domingo, novembro 23

seus olhos

esse seu olho é um labirinto sem paredes.
a gente se perde e não quer mais se encontrar.
sem referência se enxergo ou sou visto.
é como se reiventasse a imensidão do mar.

quarta-feira, novembro 19

o som da poesia : manuel bandeira

segunda edição do programa

http://tinyurl.com/5mv7zo

Mia Couto

"Afinal, os homens também são lentos países. E onde se pensa haver carne e sangue há raiz e pedra. Outras vezes, porém, os homens são nuvens. Basta o soprar de um vento e eles se desfazem sem vestígios."

"Acreditar é para quem desperta, acreditar é para quem chega. E ele estava de partida, estava fechando a alma com os mesmos cortinados que escureciam a casa dos Sozinhos".

in: Veneno de Deus, remédios do Diabo.

segunda-feira, novembro 17

tantos livros

na minha cabeça, tantos livros.
faltam as palavras para preenchê-los.

sábado, novembro 15

chorar

por que é tão difícil chorar no ônibus?

saudade

a saudade funciona em mim como um susto.

quinta-feira, novembro 13

june sky

as nuvens são as respirações visíveis.
as tempestades, as ofegações.
o céu limpo, prendimento de respiração.

na noite escura,
prendemos a respiração
para ver estrelas.

casas

ela estava sentada numa dessas cadeiras de plástico e com um cobertor bastante fino mas com desenhos interessantes. há muito estava lá, do lado de fora do portão, deste jeito. os cabelos bagunçados pelo vento natural dos ares e pelo movimento dos carros que embora diminuissem a velocidade pela curiosidade de ver uma menina enrolada em um cobertor sentada em frente a casa, ainda assim eram velocidades para estampidos de vento.

de vezes, focava o olhar em algo na paisagem, ora a esquina que escondia na outra ponta uma grande avenida; ora nas árvores e seus movimentos que pareciam indicar mais precisamente o tempo que o próprio sol. sim, ela tinha consciência de muitas coisas, talvez até da estranheza de alguém estar assim na rua. a vizinhança achava que ela esperava por algo, mas não sabiam dizer o que era tão urgente que não pudesse esperar dentro da casa.

soube mais tarde que ela tivera uma idéia estranha de que todos nós fossemos casa e ela queria saber o sentimento da casa a espera de seu habitante. porque se ela era uma casa que caminhava, a rua era seu caminho. mas se as casas não andam, o que seria a rua para as casas?

dois meses depois, lá estava ela novamente em frente a casa sentada com na cadeira plástica e com o mesmo cobertor. na casa, havia dois pedreiros trocando as janelas por outras maiores e construindo uma chaminé.

sábado, novembro 8

o som da poesia - carlos drummond de andrade

para quem gosta de carlos drummond de andrade, a primeira edição de um programa de rádio que estou produzindo.

http://tinyurl.com/6rhg5s


espero que gostem.

terça-feira, novembro 4

diálogos noturnos

-- ... e você me deixou escapar, hein?
-- nada, você ainda está aqui.
-- ... verdade.

segunda-feira, novembro 3

procura-se

procura-se mariana zanotto, bailarina de leme e hamburgo. há muito tempo perdeu-se contato. quem tiver alguma pista, endereço e razão, favor mandar um email para marcioyonamine@gmail.com .

desde já agradecido.

quinta-feira, outubro 30

longe é uma cidade sem fim

pensei se haveria lente que focasse todo o caminho até chegar em sua cidade.
se era possível ver daqui o que os meridianos esvoaçam dos nossos olhos.
se longe era um estado de ansiedade e perto, um deleite de fim de espera.
perto é uma rua que eu passo todo dia.

quarta-feira, outubro 29

canção

o dia interrupto gerou uma noite de esquecimento.
lembro-me de seu sorriso através das dobras da pele.
os dentes evitei olhar porque já eram bonitos de função.
queria prestar atenção nos detalhes de além.
seus olhos tem esse horror da claridade
na qual se mergulha sem preço para voltar.
os seus dedos são longo querendo chegar.
se cortasse o cabelo, talvez não precebesse:
longetitude se confunde com infinitude.
e o que vejo em você quero aprender.

como dar palavras ao que se passa aos olhos:
uma canção feita de refração sentimental,
a revelia dos tempos amorosos e cinematográficos.

domingo, outubro 5

o passado

perguntam-me por que o passado me atraí tanto. por que os tempos idos, épocas históricas remotas, a paisagem que não existe mais, as fotos em preto e branco fazem parte de meu imaginário. não sei porquê.

talvez porque eu tenha nascido muito tarde, talvez devesse ter nascido em uma época que ser uma história era mais divertido que ser um sentimento.

sábado, outubro 4

o navio

há um grande navio que atravessa as ruas, flutuando acima dos postes. é possivel pressenti-lo pelo grave de sua chamada, o calor de suas caldeiras e a frequência da oscilação do ar.

o navio vai ocupando nossos frades e passa entre as paisagens que deixamos de ver. há pressa também no navio, mas não é de chegar.

é de partir.

eu fiz essa fita do chico


MixwitMixwit make a mixtapeMixwit mixtapes



eu fiz essa fita do chico e alguém pode pensar que é mais fácil que o chico fale por nós. porque muitas vezes encontramos em músicas do chico algo que parece bem nos representar tanto o que somos quanto o queremos ser. ou porque as músicas dele contam histórias que ouvimos com gostosura e atenção. são histórias que falam sobre pessoas sentimentais ou que passam por uma situação sentimental. e realmente há qualquer coisa de sentimental em se fazer fitas, há qualquer coisa de contar histórias e deve haver qualquer coisa de atenção.

mas se por um lado é uma fita bacana que eu fiz, por outro, considerei que quem me pediu foi você. então é uma mistura do que eu gosto e do que você poderia gostar. tudo em um único espaço-tempo de 3 minutos e pouco. uma faixa eu pego para mim como a "xote da navegação" que parece que só eu gosto muito. outra eu dou a mão ao mais conhecido e que provavelmente você deve gostar como a divertida "biscate" (a gal costa está demais como a mulher do malandro ou a própria malandra!).

comecei com "meus caros amigos" para que soasse que eu estivesse escrevendo uma carta. fitas tem uma intimidade mais próxima das cartas, acredito. depois vem gal passa sorrisos em notas musicais.

depois vem teresinha. esta canção é para dizer que eu ando achando cantigas de roda, ninar e outras brincadeira, uma coisa linda. no caso do chico, ele é bastante cruel quando pega esse mundo lúdico e coloca sofrimentos adultos. dói e não dói.

"pelas tabelas" parece que não tem fim. como se caíssemos de uma escada com degraus curtos mas que não possuisse corrimãos. chega um momento que fica divertido cair indefinadamente. "a rosa" é uma música divertida que uma amiga me apresentou junto com uma lenda de que haveria uma outra letra mais picante. "futuros amantes" traz um verso que parece bufada de paciência: "não se afobe não que nada é para já".

"bancarrota blues" também é divertida pelo refrão de que tudo se pode vender até o que a gente acha que não tem preço. temos um temor de que talvez tudo tenha seu preço, de que pertençamos a uma lógica do capital. acho divertido que possamos brincar com as palavras assim. penso melhor o que é importante e o que vale. do preço, esqueço.

vem então o "xote da navegação" que é quase um clipe do michel gondry. o sonho se confundindo com a realidade. será possivel confundir a poesia a ponto de que ela comecesse também a tornar forma na realidade? é como se devolvêssemos poesia de onde tiramos.

"o caderno" sempre me dá vontade de chorar, mas um choro tímido das coisas que passam. como se pede a alguém que não nos esqueça porque simplesmente deixamos de existir um pouco? acho corajoso.

por fim o samba do grande amor que sempre me fez dignidade em qualquer tipo de amor.

quando a fita acabar, diga-me o que achou. nem tanto do chico que precisa pouco para gostar, mas da ordem e das escolhas. faltar sempre falta e talvez por isso que façamos como essa de gravar fitas.

sexta-feira, outubro 3

casa da palavra

ela era poetisa e se apaixonou por manuel que era escritor de contos. foi um encontro feliz, em uma fila de cinema de um filme que ambos negariam que haviam ido assistir. melinda usava flores no cabelo que provavelmente tinham sido colhidas de um quintal de condomínio alheio. ele anotava nervosamente o caminho que um personagem seu deveria tomar antes que decidisse pelos trópicos ou pela ventura.

quando se viram foi numa perspectiva das realidades das palavras. os olhos de melinda eram advérbios. os dedos de manuel eram conjugados em tempos que não foram descobertos. lembro-me dos dois, perdidos na cidades, cheios de desastres e sem saber encarar as pessoas que não os encaravam. mas entre si inventavam outras gramáticas, respeitaram apenas a ortografia porque era coisa para as próximas gerações subverterem.

foi com certo nervosismo que soube do rompimento de ambos. fico pensando onde estariam nas palavras a condição de que o tempo passa, o amor recua, a vida não está mais nas entrelinhas para ser a própria linha. também não sei se é algo passageiro como nos tempos terapeuticos para reflexão e conhecimentos. manuel mudou-se para o sul. melinda trabalha em escritório divertido.

ela me ligou hoje. falamos de amenidades e perguntou com pequeno desdém sobre manuel. eu disse que sabia muito pouco e que provavelmente ligaria para ele depois. então me pediu que o avisasse que uma carta chegaria como todas as bagagens e que era hora de voltar para casa.

quinta-feira, setembro 25

a véspera da solidão

as cortinas chegaram havia algumas horas; permaneceram empacotadas até que regina acabasse de arrumar a mesa e louça. na grande janela da sala, a luminosidade esvaía e regina considerou que era hora de colocá-las. desde que voltou ao apartamento há cerca de três anos, as cortinas foram os últimos itens a serem trocados. não havia, agora, mais nenhum vestígio de quem ali morava. mesmo a arquitetura havia se transformado com a queda de duas paredes e a incisão de novas janelas. as portas receberam protetores de insetos e as lâmpadas foram trocadas ou simplesmente desligadas.

pegou um pequeno banco, uma cadeira e fez uma pequena escada que alcançasse o suporte das cortinas. tirou-as do pacote e ficou analisando por alguns minutos o quão translúcido eram. projetou-as no ambiente, fez estimativa de como nova luz filtrada estaria pela manhã. pensou que seria bom se a luz pudesse projetar nos outros móvies os relevos do pano que ela sentia bem nas pontas dos dedos. depois achou que era um pensamento muito bobo.

escalou sua pequena escada com a cortina sobre o ombro. colocou-a com uma facilidade inesperada e pode com o tempo ganho admirá-la de cima. às vezes, ao olhar através dela para a paisagem contínua, algumas imagens de um passado quase ficcional lhe passavam com pequenos flash, quase se confundia se teriam sido reais ou não. oscilava. ao se virar para a sala, já se preparando para descer, teve uma visão. começou a enxergar uma sala que até aquele momento não havia visto mas ao mesmo tempo estava sempre presente.

cada parte, cada conjunto, cada objeto iniciou uma governança nova. deixaram de substituir pequenos sentimentos antigos para criar horizontes próprios. regina não os reconheceu e pouco a pouco, quando descia da cadeira, sentiu-se como estrangeira. pela primeira vez, em sua própria casa, percebeu que caminhavam para um lugar incerto e que medo haveria, mas estava preparada. começou a refazer os laços com a casa, visitou cada aposentou com cuidado e tempo. ao invés do frio natural dos objetos, pode sentir o seu calor em trânsito. a casa enfim a possuía.

amanheceu e a cortina agiu como um filtro. os raios bateram suas costas, por hoje, não queria encarar o sol. sentiu-se luz tatuar o seu corpo e a sala. observou a sala uma última vez antes de cair no sono: a sala antiga voltou ao seu olhar, mas difusa com a sala nova. viu-se deitada em um sofá inventado dos sofás que teve e gostaria de ter.

quinta-feira, setembro 18

nata

ela não me lembra alguém com certa delicadeza.
ela me lembra a própria delicadeza.

quinta-feira, setembro 11

. banco de parque .

no céu havia um rio sinuoso.
na terra as nuvens clareavam o caminho.
no banco, um jornal de um dia qualquer
esperava a notícia se tornar memória.
o menino que pegou para fazer barcos
tornava-o imaginação.

navegavam os navios no céu.
projetadas as sombras, as nuvens escureciam.
enquanto o mar se fazia em chuvas,
os barcos eram levados pelas ondas
que o menino fez com o estampido
de sua alegria feroz.

com a cabeça cheirando o céu,
espero o rio me levar.
mas o menino me pregou uma peça:
nestas águas, o tempo não é soberano
e o que passa é apenas notícia.

quinta-feira, setembro 4

. último desejo .

não me tornem fantasma das tuas lembranças.
deixe-me ser as pausas das cantigas de roda
que se transformam nas vozes de quem chega.

terça-feira, setembro 2

do amor #04

declarações de amor em canções de ninar


à la claire fontaine
m'en allant promener
j'ai trouvé l'eau si belle
que je m'y suis baignée

il y a longtemps que je t'aime
jamais je ne t'oublierai

sous les feuilles d'un chêne
je me suis fait sécher
sur la plus haute branche
un rossignol chantait

chante rossignol, chante
toi qui as le cœur gai
tu as le cœur à rire
moi je l'ai à pleurer

j'ai perdu mon ami
sans l'avoir mérité
pour un bouquet de roses
que je lui refusai

je voudrais que la rose
fût encore au rosier
et que mon ami
fût encore à m'aimer

. na fonte clara

na fonte que clara
eu vou passear
acho a água tão bela
que vou me banhar

há muito tempo que te amo,
jamais te esquecerei.

no alto d'um carvalho,
eu me sinto segura.
sobre o mais alto galho,
o rouxinol faz seu trabalho.

cante rouxinol, cante,
teu coração vive,
teu coração sorria…
enquanto o meu ardia.

eu perdi meu amor
sem saber o que causei,
por um ramo de rosas
que não lhe dei…

eu queria que a rosa
fosse plantada,
e que meu doce amigo
fosse assim amado…

eu queria que a rosa
fosse assim cortada,
e que a própria roseira
fosse assim plantada…

segunda-feira, setembro 1

rita apoena

http://www.pequenascoisas.org/

pergunto qual a forma, substrato ou timbre que esta retina tem para ver o mundo com tal poesia. há anos alguém me disse que a poesia não deixa as coisas maiores do que são, mas deixa a gente voltar ao nosso lugar no mundo. como diria paulinho da viola: "voltar quase sempre é partir para um outro lugar".

aí penso: poesia deve ser quando a gente se movimenta e acha que perdeu a estabilidade do olhar, mas na verdade acaba enxergando diferente as coisas.

sexta-feira, agosto 29

agnes

agnes tinha olhos brutos. ainda estavam sendo lapidados pelos movimentos do tempo. não pintava os cílios e não desenhava as sobrancelhas. a suave irregularidade a fazia pender para a esquerda com expressão de escárnio. sim, houve quem se apaixonara por agnes, mas ela era como seus olhos.

viveu desamores até seus 30 anos. cansada, saiu de casa e começou a caminhar para o norte. nunca mais se soube dela até que uma nota de jornal chamou atenção da antiga vizinha. dizia que uma mulher foi encontrada no meio do sertão, totalmente muda e louca. levaram-na a casas de saúde mental e sempre conseguia fugir depois de roubar pinças, tesouras e maquiagem.

foi alvejada por engano quando um policial confundiu uma das tesouras roubadas com alguma arma. faleceu dias depois no hospital. foi encontrada arrumando as sobrancelhas e os olhos, numa tentativa de fazê-los compreensivos.

terça-feira, agosto 26

. trauma .

a dificuldade de superar um trauma é quando ela é condicionado a um terror.

do amor #03

se a ana fosse um balão, seria um zeppelin.

do amor #02

o amor sem ser o cometa.
mas sua calda, resultado de atrito e gasto.

do amor #01

procuramo-nos nos fatos,
pessoas, objetos e significados alheios.
como se o mundo nos fizesse parte e função.
amamos a fim de completar,
amamos a fim de que nos completem.

e se começássemos a procurar o outro?
o que seria da procura de quem nos ama?
e se procurássemos não o amor,
mas a ação de amar?

quinta-feira, agosto 21

. all i have to say .



Videoclipe que dirige para a cantora Olivia. Não saiu como queria, mas está bem bacana.

segunda-feira, agosto 18

bricolantes

abri um blog para resenhas, críticas e coisas mais sérias(?). visitem:

http://www.bricolantes.blogspot.com

domingo, agosto 17

casamento

ontem me casaria com uma bailarina.
hoje com uma cantora.
amanhã com uma dentista.

sábado, agosto 16

eclipse lunar

o que é a lua quando eclipse senão pequena paixão estelar com aviso prévio para acabar?

o amor que move o sol e as outras estrelas

ali, tão perto.

quinta-feira, agosto 14

pães envelhecidos

a minha avó sempre desconfiou das farinhas de roscas industrializadas. lembro-me de sacos com pães envelhecidos sobre a geladeira alta e agora penso: como uma pessoa tão pequena os manteve lá longe das pessoas também pequenas?

ela

fiquei alguns minutos observando seus olhos. como se moviam segundo estompidos de pressão de ar. perdiam-se, voltavam. uma piscada e vascilavam. eu estava tentando compreender uma dor das coisas que não deram certo para ela. arqueou as sobrancelhas, voltou a caminhar até se perder no horizonte.

lembro-me desta imagem observando um horizonte diferente em um outro momento na natureza dos horizontes. penso nela, mas só a silhueta arqueada. na minha cabeça, não sei se ela vai se desfazendo em horizonte ou se o horizonte era ela.

terça-feira, agosto 5

metáfora

ao ver aquele mar todo avançando com suas forças e espumas, pensei se era possível mesmo que pudesse o espírito humano ser tão poderoso e cheio de furia quanto. não só o mar, aliás. comecei a pensar nos globos escolares e tentar dimensionar o quanto dessa minha visão era preciso multiplicar para ter noção real da quantidade.

depois virei-me a areia. havia poucas pessoas, mas comecei a me lembrar dos meus amigos, dos amigos deles, das pessoas que não são meus amigos mas gostaria que fossem, de todas as pessoas que amei e que agora amam outras.

transformei-me em gota. e pude estar em todos os oceanos e em todas as pessoas. diluído e esquecido mas com as propriedades próprias dos liquidos.

segunda-feira, agosto 4

. mother .

havia um bebê muito sorridente tentando se equilibrar em um banco do parque. ao lado, a mãe, moça muito jovem, lia uma revista sobre as estrelas da tevê e era a parede para que não pendesse a direita. mas a esquerda havia toda uma liberdade feita de ar.

um cachorro vira-latas ameaçou comunicar-se com o bebê o qual foi reprimido pela jovem mãe com sons guturais. o bebê ficou em um primeiro momento frustrado, mas perdeu-se ao ver o enxame de pássaros que voaram de uma árvore para atrás de um prédio. neste virar de cabeça, o sol laranja de fim o cegou por um instante. e ele sorriu por causa das cosquinhas de calor.

a mãe percebeu que o bebê tirou o peso de sua perna e imediatamente tentou acudi-lo para que não tombasse. quando percebeu que não era preciso viu o sorriso contagiante do bebê e ela também sentiu o calor laranja do sol.

o bebê voltou-se a mãe para avisar sobre aquela coisa que acabara de descobrir. achou que havia ensinado algo a mãe. achou que poderia ser mãe também.

sexta-feira, agosto 1

conversa fiada

- ele vai te abandonar.
ela ficou quieta e surpresa.
- todos eles te abandonam.
- não, sou eu quem os abandona.
- não, são eles que te abandonam.
- como sabe?
- pelo modo com que você encara o abandono: se voltando.

3 fatorial

as pessoas querem o amor para a toda vida.
o amor quer uma vida para toda pessoa.
a vida quer a pessoa para todo amor.

sexta-feira, julho 25

segunda-feira, julho 21

mercedez

mercedez aprendeu a andar tarde e talvez por isso o som dos passos lhe tenha abandonado: esperou e cansou.

assim, quando ganhou seu primeiro par de sapatos, seus pais estranharam que não fizessem som algum:

- é muito magra. parece pena. precisa comer mais.

aos 12, foi chamada de assombração porque chegava aos lugares sem ser notada e saía sem que ninguém protestasse. começou a agir como um.

andava pela cidade e ninguém prestava atenção. trombavam. os poucos amigos que tinha lhe sugeriram roupas extravagantes, mas mercedez não gostava.

aos 15 foi descoberta por um coreógrafo que ficou surpreendido com o fato:

-- é de uma beleza impar.

ela não sabia se saberia dançar. mas seu pai achou coerente e benéfico que a filha tivesse atividades que a fizesse movimentar. foi que em uma das aulas aconteceu algo que fez mercedez ter uma idéia: enquanto ensaiava uma coreografia, percebeu que o sincronismo dos movimentos com as outras meninas soava que os passos, saltos e giros fossem seus de fato. assim quando saiu da aula, começou a prestar atenção nos passos alheios e sincronizá-los aos seus.

aos 18 conheceu seu primeiro amor. era um sambista novo que a viu nesta empreitada estranha numa praça.

- você é a batida que falta, deixe-se sincopar.

então mercedez de quando em quando atravasava ou adiantava um passo.

o sambista foi para o estrangeiro ser mais brasileiro. então mercedez voltou aos passos habituais com um choro triste mas exato.

mercedez fez isso até ontem. deste modo esteve em milhares de sons porque só o som dos passos não lhe cabiam mais.

hoje, sozinha, levantou e se deixou levar ao som de seu coração.

superman

há um episódio de "liga da justiça" no qual superman recebe um presente sombrio: uma planta alienígena que em contato com a pele deixa o preso em um sono no qual é realizado o mais querido sonho.

superman observa seu filho, mulher e pai em kripton, sua casa. mas algo está errado. não é assim que devia ser.

superman que sucumbe aos desejos.
o amor pelo filho que não existe.
o sonho tão cruel quanto a realidade.

. balão .

eu olho para a menina cuja felicidade ao ver o balão é imensa.
imensos também são seus pulmões que não descobriram ainda que todo seu ar, cheio de matéria queimada de coisa viva, não vai levantar um balão.

depois, vejo-me imenso ao perceber que ela sim é quem sabe flutuar.

. rotação .

e o que há em mim que faz a gravidade durar tanto a noite de dentro?

domingo, julho 20

. funhouse .

nesta noite de corações partidos, o que posso te oferecer é um queijo.

sexta-feira, julho 18

carolina

carolina já tem mais de 30, mas seu amor esqueceu de envelhecer. mulher de muitos casos, tem poucos amores ou talvez tenha apenas um que troca de roupa e parece outro. as estações passam, o ar rareia e o cabelo muda.

o amor vive outro tempo. na suspensão de uma felicidade que chega, não avisa e parte.

sábado, julho 12

. fernanda .

hoje recebi 3 visitas. a primeira foi do fantasma dos assuntos inacabados. alertou-me que a findança é ritmo. o fantasma deixou a conversa pela metade. a segunda foi a chuva que apenas deixou bolinhos. a terceira foi fernanda que praticou carícias na minha cabeleira enquanto eu lhe sussurrava poemas leitosos. minha perna ficou dormente e ela achou graça dos meus tombos.

depois fiquei só; absorto, tentando descobrir quem era fantasma, chuva ou fernanda.

. céu de chagall .

hoje, ao sair de casa, olhei para o céu e pensei em como chagall pintaria: dividiria o cinza e o azul com uma linha sinuosa ou desenharia um galo multicor?

. teoria da conspiração .

entre 2000 e 2006, eu pensava que isabel era uma. de manhã, a caminho do ponto de ônibus, eu a via abrir a única floricultura do bairro. a noite, quando eu voltava do trabalho, ela fechava um modesto salão de cabelereiro. entre 2000 e 2006, sempre achei que historicamente o arranjo de flores tinha o mesmo sema de cortar cabelos.

de manhã era sempre muito simpática ao retribuir o meu bom dia. de noite, respondia de forma tímida e desconfiada meu boa noite. mas a noite eu sempre fui outra pessoa.

mas em 2006, a floricultura fechou. o dono manteve somente a loja do cemitério - ao que parece os mortos pagam melhor. desde então, a noite isabel começou a me cumprimentar melhor como se o dia tivesse se invertido com a noite ou como se o dia sempre lhe houvesse roubado o frescor durante o seu andamento.

soube mais tarde que não era eu que era outro quando a noite caia, mas que isabel tinha uma irmã gêmea que era cabelereira. com o fechamento da floricultura, isabel mudou-se para mogi das cruzes onde cultiva bromélias.

mas isso não explica a súbita mudança de selma, a irmã noturna.

em 2008, já elaborei 3 teorias sobre o assunto: 1. não foi selma que ficou, foi sua irmã que sempre quis ser cabelereira; 2. um namorado violento de isabel tentou matá-la e selma aproveitou a oportunidade para se fazer morta e trocar de lugar com isabel e ambas iniciaram vida nova; 3. talvez isabel fosse flor tão imensa que fez sombra a selma. com a ida da irmã para mogi, selma foi descobrindo o sol e desabotou.

o leitor que teorize também.

sexta-feira, julho 11

beijo

aquele beijo que deu em minha testa desejando coisas boas foi tão pouco que nem desejo.

segunda-feira, julho 7

. love love love .

havia um manto sobre a cidade que eu chamava de amor.
flutuavam os enamorados na densidade esquiva do amor.
procurando a unidade e o trânsito dos que não sabiam o amor.

. madrugada .

cold case é um seriado sobre fantasmas.

domingo, julho 6

be kind rewind - michel gondry

sempre desconfiei da política de autores no cinema. não que a considere inexistente, mas como tem sido discutida desde bazin sempre me soou um pouco ingênua. é bastante claro que o diretor de um filme imprime bastante o tom nos filmes que dirige, mas a autoria coletiva sempre me soou mais rico.

toda via, tenho que confessar, que espero com bastante ansiedade pelos novos projetos de michel gondry. se há um cinema de autor atualmente, em michel gondry ele encontra uma das suas maiores vertentes.

"be kind rewind", o último trabalho de gondry é genial. em uma única fita, ele consegue colocar na mesa a questão do impreviso do jazz, o jazz como fundamento da história cultural americana, o cinema como lugar de invenção e encontro, a questão da autoria e a industria de entreterimento, o universo pop do cinema americano e a trucagem como artesanato para a invenção dos sonhos, tal como seu compatriota, mélies.

pode parecer muitas questões sérias para um único filme, mas ao contrário de "the science of sleep", o roteiro é tipicamente americano com seus conflitos, ápices, descansos e final redentor, ou quase.

eu havia comentado com uns amigos que não gostaram muito de "the science of sleep" em comparação a "eternal sunshine" que embora o roteiro não seja tão genial quanto de kauffmann, há algo em "science" que é um passo a frente de "eternal", mas não sabia o que era. "be kind rewind" confirma uma direção.

quarta-feira, julho 2

domingo, junho 22

sábado, junho 21

3 Janelas de Eduardo Galeano

Janela sobre as proibições

Na parede um botequim de Madri, um cartaz avisa: Proibido cantar.
Na parede do aeroporto do Rio de Janeiro, um aviso informa: É proibido brincar com os carrinhos porta-bagagem.
Ou seja: ainda existe gente que canta, ainda existe gente que brinca.

Janela sobre a chegada

O filho de Pilar e Daniel Wainberg foi batizado à beira-mar. E no batizado, ensinaram a ele que é sagrado.
Recebeu caracol.
- Para que aprenda a amar a água.
Abriram a gaiola de um pássaro preso:
- Para que você aprenda a amar o ar.
Deram a ele uma flor de gerânio:
- Para que você aprenda a amar a terra.
E deram também uma garrafinha tampada:
- Não abra nunca, nunca. Para aprender a amar o mistério.

Janela sobre o castigo

Era Natal, e um senhor suíço havia dado um relógio suíço de presente ao seu filho suiço.
O menino desmontou o relógio em cima de sua cama. E estava brincando com os ponteiros, com a mola, com o vidro, a corda e as outras engrenagens quando o pai descobriu e deu-lhe uma tremenda surra.
Até então, Nicola Rouan e seu irmão haviam sido inimigos. A partir daquele Natal, o primeiro Natal do qual ela se lembra, os dois foram amigos para sempre. Naquele dia, Nicole soube que ela também seria castigada, ao longo de seus anos, porque em vez de perguntar as horas aos relógios do mundo, perguntaria a eles como são por dentro.

sábado, junho 14

universo

cada tecla é uma tentativa que lembrar a palavra que foge sinuosa entre os olhos, o ouvido e a imaginação.

. artificios .

roberta queria morrer mas não tinha coragem.

nas inúmeras conversas que tive com ela, sempre tentei lhe pregar armadilhas para que deixasse a idéia e focasse em outras coisas. no começo, eu evitava falar no assunto para que não aumentasse o desejo; depois lhe sugeria formas das mais variadas para conseguir seu intuito. era um jeito de lhe fazer perceber a falta de graça que tinha querer morrer. nestes últimos dias, ela andava muito quieta. depois percebi porquê.

em uma das crises que tivera, pedi a ela que respirasse fundo. desde então, vejo-a sanfonando suspiros. explicou-me depois: quando o ar lhe entra pelas narinas, reconhece em si o céu e o abismo e se joga.

sexta-feira, junho 13

casa

quando renata estava procurando um lugar para morar, queria algo que coubesse em suas economias distoantes. o dinheiro era incerto, a casa procurada também. visitou lugares que respondiam pelo preço e outros que não eram razoáveis. encontrou um apartamento em um prédio onde chegou a morar em outros tempos.

tempos de não lembrar.

o apartamento não cabia em seu bolso, mas havia uma varanda que lhe abriu a imaginação. era arejada e penetrada pelo sol. cabia um estúdio em que pintaria paisagens que não podia ver. é uma varanda-luneta.

alugou-o. as tintas ainda não chegaram, mas o cavalete está montado. o tamanho do que há na tela ainda é maior do que a preocupação de poder pagá-lo.

estes são tempos de lembrar.

palavra-terra

aos poucos, sob a umidade da narrativa, vou-me esfarelando em sentenças e frases e me transformo em palavras arremeçadas das bocas e recebidas pelos ouvidos. vou perdendo o sentido original, quebranto, e falo da morte para semear significâncias e alguma vida.

quinta-feira, junho 12

. alice .

no espelho, o que vejo, é a prata da superfície se transformando em memória.

domingo, junho 8

fotografia analógica

"é sempre mais difícil ancorar um navio no espaço."
ana c. in recuperação da adolescência

vi fotos de uma pessoa feliz que você se tornou.
as músicas tristes, outrora tão verdadeiras, são histórias de ninar.
acreditar no sempre, nas coisas que não acabam,
foi uma traição medida da qual nos recuperamos:
você melhor que eu.
você que era tão doente na melancolia da mocidade.

agora uso óculos escuros. sou como qualquer um.
no espaço findo de posses e incertezas contabilizadas.
estou perdido no espaço,
à deriva das memórias e emoções.
no fundo deste mar,
sobrevoei em um lindo céu também azul.
a sua foto deixei flutuar:
nesse espaço não há quem se afogue
ou se deixe levar.


. lua .

- é cheia, manja?
- do que você falando?
- influencia cabelo e mar. a gravidade é 1/8 da terra.
- e?
- quando a terra faz sombra a gente chama de eclipse.
- sim. e daí?
- ...
- você anda com insônia, não?
- eu já nem acordo mais.

sábado, junho 7

carta

reli uma carta antiga da minha irmã bruna. escrevia como se fosse rio, perdida no tempo, tintas diferentes, linhas irregulares num papel usado para outro fim. nela falava dos dias, das horas, da paisagem. o televisor ligado, a comida no fogo, o olhar através da janela.

a carta coloquei em outro envelope para que lesse diferente em outro dia. as palavras voltarão ao coração que sempre e nunca é o mesmo.

sexta-feira, junho 6

o quarto do porteiro

fui com ela até seu apartamento para pegar um blusa. fazia frio na cidade. o porteiro vivia no primeiro andar, o quarto reservado aos porteiros que ficava no térreo estava sempre vazio. perguntei a ela se tinham planos para o uso daquele espaço porque o problema de espaço era bastante visível entre caixas, galões vazios de água e jornais velhos.

ela me disse que lá morou um grande homem que foi esquecido pela história e ficou recluso até sua morte. uma mulher que tem uma doença de memória pediu para que deixassem assim e está pagando o aluguel do apartamento do primeiro andar para o porteiro atual.

a mulher conheceu o homem e sua grandeza, respeitou sua privacidade e lhe fez alguma companhia. ela me disse que a mulher que sofria de desmemória usava a presença daquele vazio para exercitar as lembranças. dizia que tinha medo de esquecer a bondade.

acidente

havia uma mulher deitada na rua. alguns trausentes pararam para olhar. um policial pedia que se afastassem enquanto os paramédicos manipulavam a cabeça para se encaixar em um plástico em forma de pescoço.

um fio vermelho e denso correu para o limite da calçada. uma outra mulher mais nova quis chorar mas ao ver a que deitava sorrir, tirou um lenço da bolsa e entregou a mulher acidentada quando estava sendo levada para ambulância que fechou a mão e segurou firme.

era para que ela levasse o perfume de sua filha porque o hospital lhe dava mau-humor.

terça-feira, junho 3

. engenharia reversa .

construir espigões para me jogar deles.

segunda-feira, maio 26

lugar

-- estava contigo em meu pensamento.

ela me disse no final de uma conversa sobre o roteiro de uma edição. tentei deslocar a frase para o contexto no qual conversávamos. mas a frase estava no lugar certo. e eu também.

memória de abajur

havia uma pequena loja de abajur na esquina de uma rua onde costumava passar para ir a casa dela. da calçada, quando eu ia embora, olhava para a janela dela e costumava ver as sombras projetadas nas cortinas e as luzes se apagavam. sempre pensei em lhe comprar um abajur para amenizar suas sobras. sempre achei que fosse necessário que as sombras fossem amenizadas.

hoje a moça da janela já se mudou. passei por acaso nessa rua e vi a pequena loja. lembrei-me dela e das vezes que pensei em comprar um abajur. lembrei também os livros que quis que ela lesse sob esse mesmo abajur e como eu desligaria para que nos perdêssemos. de como comporia com a poltrona que também imaginei lhe fazer com estofagem veluda mas consistente. a pequena loja estava aberta.

entrei por uma pequena porta de vidro e fui atendido por uma senhora.

-- deseja um abajur?

-- o desejo é um abajur?

terça-feira, maio 13

a invenção

agora posso falar dos sentimentos porque percebi que todos os meus sentimentos são invenção. mas ainda não sei falar de sentimentos sem inventar.

os fantasmas se divertem

eu converso com fantasmas alheios. almas penadas que perseguem pessoas que eu supostamente amo. divirto-me com a idéia de que posso ter uma conversa bastante produtiva com quem amendronta, angustia ou inferniza os meus amados. porque para mim esses fantasmas possuem um universo próprio criado na antecâmara das falácias, dos medos, da resignação e da covardia. muita coisa está a um passo das eternidades, das infinitudes e do que é esteticamente belo em questão de sentimentos. os fantasmas deram um passo para trás; os fantasmas atravessaram todas essas tolices de felicidades que poderiam ser e não foram.

os meus fantasmas são aqueles que amo. a mim, atravessam e não olham para trás.

segunda-feira, maio 12

musica do coração

há mto tempo não tenho aquela sensação de que uma música está me dizendo o que preciso saber. há mto tempo também não me entrego de alma a uma. tirar a força do pescoço e pender a cabeça. prestar atenção na síncope do coração. deixar os olhos no limite das lágrimas. o pé marcando o compasso e tudo se encaixando como deveria ser.

sorrir.

quinta-feira, maio 8

. visita .

eu te visitaria se soubesse seu endereço.
eu te daria chocolates se soubesse se a preferência é por ao leite ou meio amargo.
eu te recomendaria filmes se soubesse se é choro ou o riso quem te reconforta.
eu te amaria se soubesse que amar era íncio e não fim.

o baixo swingado de gardênia love . parte 1

acabei entrando numa dessas casas indies pelo preço da cerveja. depois da meia-noite os botecos viram abóbora e fecham para esconder suas vergonhas e o que sobra são esses lugares cheios de gente jovem com lápis no olho, piercing, pegação e cabelo lambido. não necessariamente nesta ordem.

já fiquei puto por 2 motivos: 1. tive que pagar na entrada por uma cerveja que ainda nem tinha visto e 2. a modernidade inventou as lojas de conviniência e criou a desmemória da correria do dia-a-dia.

fiquei ali sentado saboreando a salgada cerveja com uns amendoins roubados de uma outra mesa. e percebi um murmurinho em um pequeno elevado que depois percebi ser um palco. tentei apressar-me com a cerveja e os amendois, mas não consegui por 2 motivos: 1. a cerveja não era tão salgada vide que o canhoto dizia que eram 2 e a segunda não tardou a chegar e 2. o consumo exagerado de amendoin em tal velocidade eleva minha pressão o que faz sangrar as minhas narinas.

quando o show começou, eu já ia me dirigir com a segunda cerveja e os amendois de uma segunda mesa para uma terceira mesa quando o som tosco do lugar me pegou. entre aquelas guitarras distorcidas, aquela bateria que não se ouvia mas se sugeria e uma voz que eu não sabia se era homem ou mulher, entre aquele monte de sons sinistros havia um som grave e delicioso: o baixo swingado de gardênia love.

não me importei mais com toda aquela gente. nem com a indiferença das pessoas quanto a banda e da banda com a baixista escondida lá trás quase perto do banheiro masculino. fiquei ouvindo aquela pegada cheio de flea e que soltava uns slaps logo repreendidos pelo resto da banda.

pedi outra cerveja e fiz questão de pagar por outros amendois. a apresentação durou meia hora e ninguém pediu bis. enquanto o resto da banda era cumprimentado pelos poucos ouvintes fãs parentes da banda, gardênia love guardava seu baixo em seu case e foi até o bar onde já havia um copinho de tequila bordado com sal a espera.

depois, ela foi embora. na semana seguinte, voltei ao lugar para ver se haveria nova apresentação da banda. os garçons me disseram que a banda se disfizera, mas que a baixista já estaria ensaiando com uma outra.

-- aquela ali é o cú, mas curte tocar. devem estar ensaiando e logo mais estão aqui.

perguntei como ele tinha tanta certeza de voltaria a tocar ali. ele compreendeu que me referia ao swing de gardênia e a possibilidade dela montar uma banda com outro gênero que não o da casa.

-- a tequila.

-- por quê?

-- por 2 motivos. 1 . é fabricação própria e 2 . o sal é do mar morto.

. saudades aureas .

foi passar um vidrex na janela que toda aquela visão turva do céu ficou nítida.
foi preciso uma nuvem para delinear o que era esboço.
a condensação do meu hálito nos vidros não impediu que minha visão se prendesse.
como se o ar em transito pudesse desfazer as nuvens.
quis, por alguns instantes, abrir a janela e ser surpreendido pelas diferenças de temperatura.
mas o coração hesitou: "segura o mundo que te atravessa,
vista a camisa com a melhor estampa, escove os dentes, desarrume o cabelo,
calce o tênis, abra a porta e parta".
passei pela porta e o mundo passou por mim.
fui ficando nítido para as nuvens.

terça-feira, maio 6

. rain down .

para chris o.

há qualquer coisa de vento em mulheres de regatas
e há qualquer coisa de tempestade nos cabelos curtos.
outro dia, quando voltava para casa, um brisa ameaçou.
a menina que atravessava a rua descuidada
fez que ia e desapareceu. sentiu saudades.
li em seus ombros no relance antecedente,
qualquer coisa que inclinava e precipitava.

domingo, maio 4

. ana c .

chegou ontem o livro da ana cristina césar. a teus pés . surpreso fiquei ao ver na orelha uma foto dela. nunca tinha visto nenhuma, só nitrato de prata da imaginação.

eu já a vi por aí, pela cidade, pelo trafégo, pelas pernas, pelo ar. tão bonita... com seus cabelos curtos e óculos grandes. tomando café e fumando cigarros.

ainda não li o livro. tenho medo. tenho medo de não enxergar mais ana cristina césar pelas ruas. de confinar ana cristina césar em seu próprio livro.

mas ela sussura. sou tão curioso quanto medroso, confesso.

domingo, abril 20

last.fim

vou escrever algumas coisas sobre música na minha página do last.fm . quem estiver interessado:

http://www.lastfm.com.br/user/marcioyonamine/journal/

sábado, abril 5

. jessica .

jessica tem sempre essa impressão de que os homens irão abandoná-la. por isso não cria laço algum. aperfeiçoou durante os anos a manufatura do esquecimento: papeis embebidos em vodka e queimados no jardim.

em seu apartamento tudo está na medida certa. não há quem saia, não há quem entre. só é dado ao par o que anatomicamente deve ser. do resto, contenta-se com o que é singular.

se houve quem a amasse para uma vida a dois, sim. mas ela não sabe e prefere não saber. não conhece a solidão como o sol que não conhece as sombras.

não, meu nome nunca foi queimado mas sou como cinzas de jessica. ela me chama, saímos, vai até minha casa e vai embora depois de lhe preparar café.

quinta-feira, abril 3

. escrever .

houve um tempo em que eu escrevia o que as pessoas queriam ler. depois me desinteressei por isso e comecei a escrever o que eu gostaria de ler. mais tarde algo me convenceu das coisas que eram necessárias ser escritas. mais tarde tudo resulto ilusório.

quem me enxerga através das palavras sabe o quanto apanho dos meus defeitos e da gramática.

. acerca .

perguntaram-me o que quer dizer: polifonias, discursos (in) competentes e popgardens. sinceramente, eu não me lembro muito bem do porquê. mas vou tentar.

polifonias quer dizer várias vozes. bakthin, um linguista russo, identificou na obra de dostoievski que não havia somente uma voz, ou seja, um narrador ou um ponto de vista. mesmo que formalmente não se dê a voz a todos os personagens, dostoievski explorava todos os pontos de vista tomando o lugar do próprio ponto de vista. ou seja, não é alguém falando de uma fala, mas todas as falas falando de si e de outras. fiquei imaginando se isso daria uma sinfonia e o som da palavra é muito bom.

discursos (in) competentes. marilena chauí tem um livro chamado "o discurso competente" em que ela desenvolve a tesa da construção dos mitos brasileiros. o mito é algo que alguém diz, mas não se sabe quem, e tomamos por verdade. por exemplo, o brasileiro é o melhor no futebol. quem disse? a falta de autoria faz com que não consigamos criticar uma afirmação. é mais ou menos como funciona os ditos populares. mas o que ela aponta é que alguns discursos são implementados e como os mitos parecem que não tem autoria, parecem. a idéia de uma discurso incompetente é um pouco indo para esse lado. são discursos que não se escondem em afirmações ou se tentam se esconder não conseguem. também me lembra de um poema do fernando pessoa em que ele diz que está farto de quem nunca tenha cometido um ato vil ou pelo menos que não diz ter feito. poema em linha reta.

popgardens. a idéia de jardins sempre me foi querida. ter grama, flores, árvores, pequenas hortaliças e temperos. o pop na frente me remete a cores. um jardim com cores pops.

minha cabeça é bem estranha.

terça-feira, abril 1

. navegação .

amanhã fará uma semana que minha avó faleceu.
a imagem que guardo é de uma criatura muito pequena vencendo 3 oceanos.

domingo, março 23

. uma véla sobre a lata de nescau .

quando tudo isso acabar, não farei distinção do meu pé esquerdo ou direito. sempre tive dois pés esquerdos, então será fácil. o meu olhar perdido, aquele que quase ninguém gosta porque não tem função ou não denota catarse, estará recheado de areia e tempo. não vou deixar bilhete ou carta ou obra ou árvore plantada. porque bilhete é anacrônico em tempos de e-mails - e tenho muitos e-mails para lembrar de todos eles; cartas ninguém tem mais paciência de ler por serem tão longas e feitas de papel e tinta; obra nenhuma realizei por falta de tempo e conteúdo e as árvores, melhor que eu, resistirão a tanta devassa e lama.

gostaria de ter viajado mais e amado menos. gostaria de ter aprendido a nadar e a desenhar. e ter aprendido a fazer bombons para presentear, manipular o cacau e os sonhos.

terça-feira, março 18

. mensagem de celular .

enviei estas mensagens para aurea em 2005. ela as recuperou como uma cápsula do tempo.

"fotografar é uma piscadela invertida. entao olhar é dar movimento ao inerte"

" os semáforos escondem um cinema. ela quer fazer narrativas de amor na atenção do amarelo"

quinta-feira, março 13

. diálogos impertinentes .

-- você perdeu um certo charme quando deixou de ser dramático.
-- ...
-- mas quando vai deixar de ser tão intenso?

domingo, março 9

. a véspera de alice - trailer .



na verdade é o íncio.
na integra, em breve.

domingo, março 2

pouco

"Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive "

Fernando Pessoa
(enviado por Vandreza)

quinta-feira, fevereiro 28

. fever .

não me lembro-me bem de você. acredito que seus cabelos tenham sido mais longos embora assim curtos soem bem. você costumava usar calças desproporcionais e cheio de cores e algumas pulseiras. nunca vi esse colar em seu pescoço, mas talvez já tenha visto em sua mãe. do seu pai eu me lembro de uma gravata de um pano incerto que desfazia o nó. era um pano que não era para gravatas porque não enfeitava e não prendia. mas era um tecido que cabia em você. se não fosse o corte, poderia fazer uma saia ou algum vestimento de leveza filial.

pedi café. com pouco leite, como gosta.

segunda-feira, fevereiro 25

. haru e natsu .

que sentimento de felicidade é ouvir a língua japonesa em um canal de tevê brasileiro. mais ainda é ouvi-la entre chamadas de comerciais e narração em bom português (tirando o personagem brasileiro que não fala português). infelizmente não dá a idéia do quanto é complexo este sentimento de transitar em culturas tão singulares.

mas se você teve paciência de assistir a este melodrama, deve ter vontade de transitar também.

sábado, fevereiro 23

. discurso de outono .

não que não a amasse. ao contrário, amo-a de forma singular. só não poderia ficar com ela como um casal. por quê? pelo simples motivo de que ela não me ama. aliás, ela ama outro. se é casado, um fantasma ou apenas alguém que não lhe corresponde nada muda o fato de que aos seus olhos sou apenas alguém que a luz não atravessa. não enxergará além.

sim, sim. a história possui exemplos de casais que não se amavam; ou que cabia a apenas um a particularidade do amor. não são tão comuns quanto os casais que se amavam ou que buscavam a realização. há na natureza do casal a felicidade mútua. é das invenções mais generosas, não concorda?

não me incomoda o fato da não-correspondência. esta falta já me levou o que podia. já levou o amor demais do qual me orgulhava e me deixou o amor possível a quem acompanho. às vezes, tento fazer ciúmes a ela com meu amor possível, em vão. também não me importo com seus amores demais.

um amor demais pode transformar a não-correspondência? já me peguei várias vezes pensando nisso. se é possível provocar o calor com calor alheio. houve uma época que eu acreditava que a concepção do amor não possuia qualquer relação com as coisas humanas; quase uma divindade ignorante possível.

mas os amores foram esvanecendo. no começo, eu acreditava que a lembrança era a prova da eternidade do amor; mas a memória também se esvai.

eu amo assim: a mercê do tempo. desta forma, ela me atravessa sua angustia por não me amar me envelhece e troco a elasticidade pelo possível.

segunda-feira, fevereiro 18

. fala comigo doce como a chuva .

estou rabiscando alguns roteiros de curta-metragem. peças curtas focando texto e ator. coisa fácil de produzir. tennessee williams tem algumas peças curtas muito boas. estou adaptando este "fala comigo doce como a chuva". já havia pirado em "um bonde chamado desejo". alguma recomendação?

domingo, fevereiro 17

. heartless .

sou uma dessas pessoas sem tatuagem e sem coração.

quinta-feira, fevereiro 7

. talk about .

não falo muito de mim. já faz muito tempo que tenho deixado de falar de mim. uma ou outra vez falo como um personagem. um eu lírico meio freak e testemunhal. a razão é bem simples: a repetição. já falei muito de mim toda vida e se repetir é uma coisa triste. marx dizia que a vida se repete em forma de tragédia ou comédia. das tragédias já estou cheio e a comédia é um ponto de vista que espero um dia chegar.

mas vamos falar de você: como vai hoje em dia ?

terça-feira, fevereiro 5

. postcard blues .

eles construiram uma casa a revelia dos recibos de aluguel, contas a pagar, cartas equivocadas e iptu. nunca tiveram um teto comum por mais de duas noites. das muitas janelas que se entreolharam, uma ficou fotografada e impressa em um cartão postal que não chegou a tempo. já se mudaram novamente.

ele estava esperando por ela na fila do cinema. não sabia se comprava o bilhete dela junto com o seu. sentou-se em um banco perto das últimas notícias de jornal. ela chegou ofegante e correu para a bilheteria. ele fez um sinal com os bilhetes. ela o cumprimentou e se desculpou pelo atraso.

quando passaram pela bilheteiro, ele ofereceu as duas entradas para o picote. quando se sentaram, ele separou a que estava melhor picotada e entregou a ela. então a janela se abriu e o primeiro fotograma do filme se tornou o primeiro cartão-postal.

ela sussurrou a ele o que estaria escrito naquele cartão-postal. e ele selou com um beijo.

. o carnaval .

no carnaval, eu vivo a melancolia de festejar o fato de que todos os meus amores foram de carnaval.

terça-feira, janeiro 29

. aurea me deve uma dança .

dançar é o espreguiçar da vida, dizia uma amiga que há tempos não vejo. se ela dançava bem? não sei dizer. o que conheço de dança está em meus olhos. o que tentei aprender perdeu-se no meu quadril, joelhos e tornozelos. os passos matemáticos me recordo de alguns, mas a confluência da carne e ritmo, isto não tem memória. eu sei pular e balançar a cabeça.

o fato é que se você é convidado para um baile, há uma grande chance de estar em uma pista de dança. tirando as danças modernas e aeróbicas, não me vejo com talento algum de uma dança a dois. deve ser o tipo de coisa que revela o quanto sou desengonçado a dois.

e estou com tanta vontade de abrir os olhos que o quase convite de aurea para um dança me soa um leve despertar.

segunda-feira, janeiro 28

. canção da menina acrobata .

eu andava pela cidade, a cidade esguia.
perseguindo meio- fios, fios sentimentais.
de prédio até antena, antenas de varais.
procurando alguém que não sei se existia.

os pés embaraçados em cortinas de seda.
nas rendas do vestido, amores bricolados.
atrito vertiginoso do pano em braços e veredas.
a anti-gravidade dos que são bem amados.

a menina acrobata se contorce, está desiludida.
quase ninguém a vê em seus mudos movimentos.
mal sabe ela que eu observo suas acrobacias,
faço leitura, digo coreografias, mas não tento.

segunda-feira, janeiro 21

. sonho com renata .

tive um sonho com a renata. não que eu nunca tivesse sonhado com ela, mas normalmente não costumo lembrar. aliás, é da engenharia dos sonhos um dispositivo para que esqueçamos o fato sonhado quando despertamos novamente neste mundo. talvez seja um modo de caber mais material para a máquina onírica.

depois, passei o dia inteiro pensando nela. em como éramos amigos próximos e como alguns assuntos sumiram das nossas conversas. piadas bobas, assuntos sérios, longas conversas telefônicas.

mas o que me fez lembrar que sonhei com renata não sei bem. a principio pensei que era o vestido que ela usava. acordado, pensei com meus botões e vasculhei o circuito ao lado que cuida das memórias e percebi que nunca havia a visto de vestido. talvez, a máquina dos sonhos tenha estranhado essa criação e a considerou apenas um documento das memórias. assim colocou um post-it avisando da estranheza do fato.

foi aí que percebi: o vestido de renata foi a conversa ao telefone que deixamos de ter.

segunda-feira, janeiro 7

. sobre um azulejo de cordel .

manta de purpurina, bois que voam.
uma árvore melindrou.
as pessoas reverenciam, ornam.
cordel de amor pousou.

sábado, janeiro 5

amores possíveis

eu a olhava e nunca vi além. todo esse tempo, o tempo contado dos relógios digitais, todos esses anos, os anos passados das folhinhas de feliz ano novo, todos esses países e ruas e cidades e eu nunca a vi além.

é como aquele lado do colchão que sempre esteve ali e onde as molas sempre foram receptivas. ou o livro ganho, mas nunca lido a espera.

que possibilidades há no amor além do que amamos? haveria o amor somente no perecível do nosso ser ou é também amor o que nos chega amorosos e dispensamos por falta de compreensão amorosa?

pego-me numa encruzilhada: o amor em mim aos poucos indo e outros tantos, indentificáveis e possíveis, chegando em ondas, senso, acuridade e confluência.

quarta-feira, janeiro 2

. speed of sound .

minha prima me contou esta história de um tempo em que os automóveis usavam a raiva para ser mais veloz: o pai de uma menina chamada julia proibiu o namoro com um vizinho. serafim, o menino dela, roubou o carro de seu pai, um opala cheio de tiques, e fugiram.

o pai de julia mandou a polícia atrás de serafim com uma história de tóxico. a perseguição durou apenas alguns minutos. o opala bateu de frente na parede de uma fábrica de móveis. a minha prima trabalhava na fábrica e era hora de todos irem embora.

o carro encolheu devido a batida. as mulheres gritaram e alguns homens foram socorrer as vítimas. mas não havia ninguém.

como se houvessem atravessado os vidros do parabrisa e depois a parede e depois as máquinas cortantes de dentro da fábrica.

fugitivos que são, o casal ainda é procurado pelo pai de julia. a polícia já se esqueceu. a minha prima faz graça do opala reduzido. e eu tenho vontade de dirigir.