quarta-feira, dezembro 30

ainda ela

ela é uma tempestade e o verão.
a correnteza despedaça as casa e as pontes.

e depois um céu vivo profundamente azul.
e o vento que pega na minha mão,
e faz movimentos para que parta;
e faz força para que fique.

. vestígios do dia .

criei outro blog com dicas de música, cinema e livros.

http://vestigiosdodia.wordpress.com

passa lá!

quinta-feira, dezembro 24

bete ciência

bete olhou para o céu e pensou em como poderia datilografar poemas que tivessem a validade das nuvens. sim, porque havia ciência nos poemas e arte nas nuvens.

terça-feira, dezembro 22

trágico

a primeira carta que o homem escreveu para sua mãe chegou ao destino, mas ela havia falecido algumas horas antes. perdeu-se no inquieto funeral por causa da partilha. o homem não quis nada, soube em carta do falecimento e até sua morte orgulhou-se de ter aprendido a tempo a escrever para poder dizer todas intepéries e provações que sofreu na cidade grande.

só se arrependeu de não ter usado em nenhum momento a palavra amor.

quinta-feira, dezembro 17

tsuru.15

ele: bigodes feito de penas.
cinto de pedaços de livros.
ela: um brinco de grão de cacau.
batom de amores notívagos.

viagem em eliza

as pessoas são viagem.
a vida, paisagem.
eliza, um trem.

na estação, observo as viagens aguardando suas elizas,
enquanto a paisagem passa.

o trem chega e me beija.
e a vida parte.

quinta-feira, dezembro 10

véspera

hoje,
a cada respiração,
lembro-me de cada fôlego
que me faltou para dizer
e fazer a coisa certa.

lembro-me de cada véspera
que não se revelou véspera.
os dias mesmo,
não me recordo
porque se impregnaram
em todos os porvir.
mas as vésperas, sim, lembro:
casca marcada em árvore incendiada.

hoje, penso em todos os sorrisos
que eram para mim e deixei que fugisse
porque o mundo é o lugar que pertencem os sorrisos.
e não percebi que eu era também um mundo
e que sorrisos alheios podiam me habitar.

hoje,
a velha casa vazia é véspera:
a lembrança respira descontinuada
os sorrisos que deixaram de ser sorridos.

segunda-feira, dezembro 7

tsuru.14

quando o céu está bonito, é pecado você não estar também.

tsuru.13

o céu é imenso assim como seu sorriso.
mas o solo é que se planta os desejos.
e é lá onde as sombras nos contam histórias.

tsuru.12

chocolate com amendoas e café.
pão e o recheio que quiser.

tsuru.11

tomar banho de estrelas cadentes.
enxugar-se com manto da noite.
escovar os dentes com raios da alvorada.
sonhar com a esperança da supernova.

terça-feira, dezembro 1

ana partida

ana, eu que sempre fui apaixonado, vejo-te partir novamente. é uma pequena dor com a qual já me acostumei.

eu que já vi tantas anas libertárias sob tua pele flamulada, assisto aquela que finalmente se deixou ser liberta ir embora.

sempre foste saudade e cabelos curtos. aquela da poesia que encerrava em si as paisagens e processos. eu gostava dos teus redemoinhos, mas sempre tive medo de que não passassem.

eu tenho medo, ana, é que com seu coração agora aberto, eu não reconheça onde estive em todas as suas partidas.

segunda-feira, novembro 30

idéias flutuantes

faz algum tempo que deixei meu moleskine de lado. lá eu anotava idéias ou pequenas frases para iniciar um texto novo. são poucos os momentos que me ocorre algo para anotar, mas ando tão perdido na rotina de correria que deixo as coisas passarem como se não me importasse.

mas me importo. sinto falta deste exercício diário para olhar o mundo em outras perspectivas, de repensar as idéias das palavras, de me apaixonar por personagens, de tentar perceber algo que antes não pude ou inventar algo que pode ser útil e quem sabe bonito.

outro dia estive pensando na palavra "emissão" e não sei por que me veio outra: pouso. e depois uma imagem de corpos se jogando no espaço com o dorso distorcido como um desconforto antes da desejada liberdade.

domingo, novembro 22

girassol

o colírio é a chuva de hidratar.
o cisco, o abudo de crescer.
o cílio, a madeira de moldar.
o piscar, o dia de volta.

para o beijo
que semeadura
teu olho
o girassol
ao redor
da íris.


em perspectiva,
o que desabrocha
está entre o que se vê (florece)
e o que é florido (visto).

para marcela

terça-feira, novembro 17

tsuru.10

não perca sua carteira. guarde um tanto de mente sã paras as engrenagens da vida concreta. as engenhocas da vida sonhada são imperfeitas (sonhando ser perfeitas), mas a física do mundo concreto não perdoa.

tsuru.09

ter a vida de pouco bons excessos.
velocidade para chegar mais cedo
e surpreender quem espera.

domingo, novembro 15

love love love

sou a soma de todas as mulheres que deixei de amar.
sou o excesso de amor que elas descobrirão.
o amor segundo e desmedido.

quinta-feira, novembro 12

tsuru.08

e se venta tanto pode ser que leve os cortinados do varal.
mas também pode ser que faça secar mais rápido.

tsuru.07

bonito é o teu coração dizer que é animal alado e imaginário.
o amor é o teu coração ter uma boca assim.

tsuru.06

que se invente o mar entre suas tripas.

tsuru.05

em dias frios, faça fogueira com aquelas memórias que não importam mais.

segunda-feira, novembro 9

tsuru.04

passarinho, vem fazer um ninho aqui ó!

tsuru.03

e esses gizes de cera, para o que são?

tsuru.02

um céu de brigadeiro.
uma noite de conversas.
um amor verdadeiro,
mas sem muita pressa.

tsuru.01

a cada dobra de papel, a cada forma peculiar, eu seco uma gota da sua solidão para os dias que se cuidar.

* retomando um projeto antigo, chamado "mil tsurus". republicarei os posts antigos, mas aviso quando for novo.

domingo, outubro 25

tokyo, tokyo

ando sonhando com tokyo.
passos semi-pisados em casa.
ela se faz de desentendida
tal qual pão sem nacionalidade.
todos os pães estão em tokyo.

tokyo é para onde nos desencontramos.
perdemos o eu para tornarmos parte.
sonho o desejo de me perder em tokyo
e em parte te encontrar.
as placas dizem a mais mentirosa verdade.

e teus olhos de estrangeira
reconhecerão em mim o país que também sonhou.
emitiremos os nossos passaportes amorosos
e imigraremos um ao outro.
de tokyo partem os corações que não voltam mais.

ando sonhando com tokyo.
estou prestes a me apaixonar.

sexta-feira, outubro 23

sexta-feira, outubro 16

. terceira pessoa .

encontrei uma pessoa da qual uma amiga me falou bastante. ao me apresentar, ela me perguntou se eu era o marcio dos vídeos. e conversamos assim: como se os amigos comum fosse uma linguagem para perguntar sobre o que foi dito e o que poderia ser.

terça-feira, outubro 13

sábado, outubro 10

. o fim da poesia .

entre os vasos de temperos deixados a sorte,
havia um de poesia que resistia tal qual o alecrim.
sua dona, nestes dias de longe,
almoçava muito fora
e voltava muito cansada para jantar.
mas de manhã,
enquanto preparava o café rápido,
sempre via de relance a sombra de seus temperos da janela.
e os lábios rachados da secura do dia
faziam com que pegasse um copinho de água e irrigasse o que restava.

assim a poesia resistia a miséria como lembrança rachada.

terça-feira, outubro 6

. casa de baile .

havia uma noiva e um lago. e havia também águas que bailavam. o vestido não se arrastava e a tiara estava enfeitada com flores outonais. o céu ameaçou cinzas. os peixes, sonhar. os paparazzi perderam a graça com suas máquinas de captura.

e todos esperavam a música.

aproximando-me, eu vi a noiva rodar. pude perceber a armação que dava ao quadril a leveza aparente dos vestidos. os ombros nus. a boca que brilhava e o pó que amenizava a idade. na casa de baile, os convidados venceram seus cansaços.

quando a música parou, o vestido pousou. todos despediam-se e a noiva veio até mim:

- não quis bailar comigo?

- não, eu quis casar com você.

. almoço .

garçon mineiro sensível a solidão
deu-me um desconto no prato.
e sugeriu que pagasse uma bebida
a uma mulher que almoçava também só.

segunda-feira, outubro 5

. poesia amorosa .

ela se apaixonava por poetas porque poesia era tudo que via.

domingo, outubro 4

minas gerais

perdi algo no voo de belo horizonte para cá.

sábado, outubro 3

. oratório de pedintes .

no final do dia, o homem veio recolher a esmola depositada nas gavetas do oratório. um último bom católico chegou as pressas e veio lhe dar algumas moedas. o homem voltou o oratório ao lugar.

-- não precisa, tome aqui.

-- não posso aceitar, ao menos que deposite na gaveta e reze.

o bom católico ficou sem graça e atendeu a liturgia. foi embora desejando um bom-dia. o homem então sentou no seu banco de praça. contou o dinheiro. guardou uma parte para a cachaça e a outra, bem maior, colocou em um envelope e entregou anonimamente a um veterinário para que realizasse castrações de graça.

. passagem para mariana .

através da janela do trem me perdi em tempos obliquos.
o meu reflexo na janela envidraçada me envelhecia.
nas passagens dos tuneis fui transportado em medos deslocados.
as curvas me faziam olhar a máquina que me levava,
nas retas, imaginei que não me restava muita coisa do que já fui.
fitava os barrancos com a supresa de menino que reconhece aos poucos a altura.
o balanço me fez pensar em ter saudades tuas.

então perdi as perspectivas e proporções.
e percebi o quão éramos próximos apesar dos espaços deslocados.
e o quanto não éramos.
fiz meu ombro se acomodar no banco de madeira desconfortável
para ter a melhor posição até o termino da viagem.
pensei em ti algumas vezes e a paisagem foi mudando de cor, saturando.

sinto saudades.
a distância faz a montanha ficar azul.

sexta-feira, outubro 2

o filho e o pai

o pai sonhou em ser engenheiro, advogado, jogador de futebol, artista de cinema e televisão, jornalista, médico, astronauta, delegado, tudo que para que seu filho sonhado fosse grande.

o filho real ficou grande ao descobrir os sonhos do pai e sonhar os próprios para seu próprio filho.

. os noivos .

eles eram noivos, mas de ninguém.

ela tinha este jeito cuidadoso de manter as noticias frescas e preparativos. ele sabia planejar muitos futuros. ela aprendeu com calma os cuidados que a manterão longe de muitos problemas. ele já desistiu das viagens e investiu em documentos. há quem faça para ela um vestido branco, mas simples. ele tem bons amigos para padrinhos.

eles não se conheciam, mas como formavam um casal bonito! alguns amigos comum já pensaram em apresentá-los. mas havia sempre algo terrestre que impedisse. as horas, o trânsito, a indisposição, o fim das relações ou o começo.

mas hoje fez um céu festivamente azul e no flutuar das vivências, alguém resolveu pintá-los encontrados. e eles se casaram e deixaram que retocassem seus noivados.

não sei qual dos dois sorriu e qual chorou.

quarta-feira, setembro 23

. ela mesma .

eu sempre peço para as pessoas que vão para longe que mandem postais. talvez eu acredite que fazer algo tão clichê seja um modo de observar o mecanismo do mundo funcionando. as centenas de cópias da mesma foto com legendas. o espaço do selo. a pequena área para contar sinteticamente o que os olhos acreditam eterno. um pequeno suspiro para pensar nas palavras que melhor serão recebidas pelo remetente. o carimbo indicando a moeda local.

é um pedido para que pense em mim em um momento tão singular na vida. é também uma oportunidade para quem pudesse se sentir meio tolo em enviar cartões postais em época de imagens digitais. gosto de pensar que todos os postais querem me convencer para partir também.

mas a minha cabeça não é tão boa para essas coisas. viajo muito na cabeça e coração. mas o espaço das fronteiras me angustiam um pouco. acho que é porque me dá uma sensação ainda maior de que compreendo muito pouco tudo que me rodeia.

viajo amanhã. nem é tão longe. o lugar e a pessoa. estou um pouco ansioso, confesso. é um mundo que conheço mas nunca vi. tenho comigo que cumpro uma promessa e gosto de pagar promessas quando é um jeito de acredita melhor.

vou passar em bancas para ver postais. perguntarei preços de selos.

mas chegarei antes.

sábado, setembro 19

correspondência

no amor, não sei responder cartas.
e quando escrevo, dificilmente são respondidas.

domingo, setembro 13

. heartland .

um coraçãozinho que morava só saiu para rua para dizer que era sua também aquela rua. que, embora não parecesse, aqueles postes também iluminavam a sua volta para casa segura e como todas as outras casas, a sua também tinha um número para identificação dos correios e que também poderia ser referenciado como a casa da rua tal perto da praça tal.

aliás, aquela rua daria numa praça que também ele adentraria e que também ali estariam outros coraçãozinhos como ele, ávidos para dizer as coisas que atormentam o verbo e o pertencimento.

e que dentro dos coraçãozinhos haveria seres humanos distraídos e ignorantes ao amor.

quinta-feira, setembro 10

marcela

marcela aproveitava o intervalo entre suas crises de asma e amores para transformar verbos intransitivos em transitivos.

terça-feira, setembro 8

tempo e voz

o homem trouxe café naqueles copos plásticos com tampa. com leite em espuma para ela, puro para ele. sentou-se ao lado dela naquele banco voltado para uma vista deficiente da paisagem que se imagina tão bonita. a mulher acabara um telefonema e estava enviando uma mensagem, provavelmente para seu secretário.

-- um minuto, marcelo.

ele esperou pacientemente. tomou um pequeno gole de seu café. assim que ela terminou, também abriu a tampa de seu copo e com um sorriso de agradecimento também tomou seu gole cumprindo um tratado qualquer sobre cafés em comum.

-- diga, marcelo.

ele pegou sua mão e ela teve uma hesitação. o telefone dela tocou e ela se achou salva. levantou-se e foi para um canto. alguém a chamava com urgência no trabalho. ele compreendeu e apontou o ponto mais próximo de táxi.

-- venha a minha casa semana que vem e conversamos melhor.

ela o abraçou fortemente a medida que achou que pudesse compensar uma falta. satisfeita e aliviada, foi embora.

ele também não se incomodou tanto. teria mais tempo para ensaiar seu pequeno pedido. bebeu um pouco do café que ela havia deixado e começou:

-- gostaria de falar das coisas que tem me atormentado, das minhas inquietações sobre a natureza do mundo. como conversávamos antes. na época que tinhamos incomôdos semelhantes e você me ouvia bem. e eu sabia lhe dizer as coisas com humor...

achou-se tolo. talvez fosse melhor escrever. na certa, ela não leria. não teria tempo. desistiu da idéia. levantou-se para ir embora quando o seu telefone tocou. ela falou baixinho:

-- marcelo, não vai acreditar. o motorista do meu táxi tem a voz igualzinha a sua. ouve só.

e colocou o motorista na linha. ele não concordou que tivessem vozes parecidas, mas achou graça da ligação.

-- marcelo, ele estava contando que plantava café, veja só. por que você não me conta mais as coisas?

-- eu...

-- você é engraçado, tenho saudades suas às vezes.

-- às vezes?

e conversaram até que ela chegasse na empresa. e naquela noite conversaram sobre o que lhes afligia. ela dormiu na casa dele porque o dia seguinte era domingo: dia para se inventar tempos.

. janela .

os olhos são janelas.
é por elas que a alma se suicida em lágrimas.

sexta-feira, setembro 4

bela adormecida

no vagão em que viajo, há inúmeras belas adormecidas.

adormeceram pelo cansaço do dia, pelo entusiamos necessário do dia seguinte, pela possibilidade de retomada de um sonho bom com véspera de infinitude, para amenizar dor causada ou sofrida.

seus príncipes, se há, sonham que estão despertos e em vigília pelas suas amadas.

e o beijo está perdido nas escadas rolantes, plataformas de embarque e desembarque, sinais, túneis, avisos sonoros e saídas de emergência.

perdido como inflexão dos que procuram e dos que aguardam.

de repente, uma delas desperta. um pouco sonolenta, estranha a vastidão das que dormem. fica pequena, mas não consegue retomar o caminho do sono. observa as estações: tão longe.

desço no paraíso e a última imagem que vejo é ela enquadrada pela janela do vagão, como um cinema, tentando compreender a linguagem física das respirações e dos sonhos.

segunda-feira, agosto 31

. rafaela .

rafaela gostaria de reencarnar como avião: cheia de ciência dos homens.

quarta-feira, agosto 26

. mariana blues .

quero agradecer a todas as críticas, sugestões e elogias pela edição do livro. fiquei muito feliz com todas as manifestações. daqui a cinco anos tem outro!

terça-feira, agosto 25

os ângulos

existe um ângulo pelo qual te observo com uma inquietude deslocada. é um ângulo que te deixa bela de uma forma que não sei fundamentar. por meses, achei que seria através dele que me apaixonaria.

então percebi que este ângulo se assemelhava aos que as aeroespaçonaves inclinam em sua aventura de reentrada na atmosfera para voltar para casa.

domingo, agosto 23

o clube das cartas diáfanas

quando kiomi chegou em tsurumi, foi a uma loja comprar papel, envelope e caneta para uma carta que contasse as boas novas.

ao chegar em casa, descobriu que as folhas por trás do pacote com um belo desenho de avião pareciam seda de tão finas e delicadas que eram. raciocinou que eram para baratear o peso em gramas de suas palavras. concordou que era um bom artíficio.

escreveu seis páginas e encontrou dificuldade para que a caneta não borrasse o papel. e quando juntou as três folhas percebeu o quão transparente eram ao ver suas palavras misturando umas às outras.

e assim suas outras cartas se tornaram enigmas para montar, sobrepondo e refazendo significados. em tempos assumiu desenhos; de ideogramas e finalmente as próprias manchas.

os destinatários divertiam-se e logo promoveram encontros quando descobriram que as cartas entre si também dialogavam.

até que as cartas começaram a ficar rarefeitas. as letras, mais fracas. as manchas tomaram conta.

no outono, o clube das cartas diáfanas se reuniu uma última vez e decifrou a seguinte mensagem:

"descobri o abismo entre a saudade e a falta. vai além das palavras voltar e partir. mas repousa na transparência destas correspondências".

o clube agora procura por suas cartas em resposta.

segunda-feira, agosto 17

neusa

neusa não era baiana, mas desfilava na ala de sua escola. nos domingos, dessalgava a carne e cortava o toucinho, mas o tempero deixava para outras a feijoada de quadra.

era pelas mãos de neusa que as cobrachas se aposentavam para ser baianas. a dobra do turbante, a costura dos adereços mínimos, colares, quitutes e temperos básicos.

-- não carregue bandejas. erga as mãos em agradecimento e celebração. depois gire como a ordem natural das coisas. dizia ela às mais novas.

cleide, que acabara de ingressar ao grupo e era a mais bela cabrocha de seu tempo, ao tomar uma repreenda de uma das baianas por querer costurar as franjas de sua antiga vestimenta, foi ter com neusa:

-- dona neusa, a senhora não tem saudades dos tempos de passista?

ela sorriu um pouco e respondeu:

-- cleide, eu nunca fui passista. desde pequena sempre quis ser baiana. a tragédia do carnaval para mim nunca foi a quarta-feira de cinzas. mas nunca caber nestas saias. quando consegui rodar sem que se arrastassem pelo chão, nunca quis mais que parassem.

-- então como consegue dançar com tanta alegria se não sambou como as cabrochas?

-- ah, isso veio com as saias.

sábado, agosto 15

moleskine

no meu moleskine, as idéias soam mais bonitas.
mas não passam de idéias.

terça-feira, agosto 11

x-men

meu coração é wolverine.
dói um bocado quando se fere,
mas fica como novo depois de partir.

é tão só.
e tão sem passado.
e apaixonado pelas coisas impossíveis.
não envelhece muito
e comete as mesmas burradas,
porque sabe que se recupera rápido.

só me pergunto:
para que tanto adamantinum?

domingo, agosto 9

. pb .

a fotografia se formando na química do revelador
parece uma piscina sem volta,
como se mergulhasse em tempos perdidos
nos quais a cor é apenas uma lembrança.

sábado, agosto 8

. desilusão .

nós sempre procurando motivos para ficar.
a vida sempre dando razões para partir.

terça-feira, agosto 4

. vazio .

toda vez que ela vai embora, deixa de presente um vazio que vou preenchendo sem afobação para acostumar a saudade com a falta.

quinta-feira, julho 30

rocinante

virou-se para mim, tirou uma sujeira da minha bochecha e disse:

-- você é um dom quixote, embora você insista em ser meu sancho pança.

domingo, julho 26

landscape dreams

na fotografia que vejo, não sei o que seus olhos focam para além do que vejo.
e nesta região imprecisa, construo um espelho cheio de angulos,
tentando refazer o corte que o fotografama fez linguagem.

continuo vendo a foto procurando algo que deixei passar.
e me conveço aos poucos e com certa melancolia
que deixei passar você.

terça-feira, julho 21

:: pequenos prazeres

Um copo d'água gelada antes de sentar na parte que mais gosto do sofá, bem ao lado da janela, e cobrir os pés com a manta amarela para ler as correspondências. Antes ainda, um cheque para deixar na portaria amanhã pela manhã. Amanhã é dia de receber a cesta de orgânicos pela primeira vez e ando ansiosa com as comprinhas. Alfaces, tomatinhos, iogurtes assim e assado, frutas e legumes e afins lá do Caminho da Roça.

E então, no meio das contas, tinha uma carta dele. Ele sempre foi a favor das cartas. Das cartas escritas à mão. Um envelope maior do que o normal, também escrito à mão, como se, dentro daquilo, viesse ele. E foi mais ou menos assim. No envelope, "Mariana Blues". Mais de uma vez eu senti que o que eu mais queria era um livro dele para a minha cabeceira. E, de repente, chegou. E então, vou deitar mais calma, com a luz do abajur sobre as páginas de seu primeiro livro. As poesias e as prosas que eu li e reli tantas vezes e tive vontade de grifar.

Mais um copo d'água gelada, escova de dentes, pijama de inverno, mochila fechada e eu vou lá para o mundo dele para entender melhor o meu. Boa noite, durma bem e obrigada pelo presente. Antes de adormecer, vou apoiar suas páginas ao lado dos livros de Clarice, que insisto em deixar bem próximos ao travesseiro da esquerda."

LuFec

thanks, lu!

domingo, julho 19

esquecer

existe uma versão do verbo esquecer que minimiza o verbo lembrar. age próximo ao seguir a diante e soa como deixar para trás.

porque esquecer requer algo além de um compreensão imprecisa.
requer um não conhecimento.
requer um deixar reconhecer.

alguém disse uma vez que havia uma doença que fazia o esquecimento nas pessoas.
e um outro alguém que avisou que esquecer podia ser uma espécie de cura.

talvez sejam só pessoas tentando viver as coisas lembradas.

sexta-feira, julho 10

. mariana blues .

os livros chegaram. já estou enviando. por favor, avisem recebimento.

segunda-feira, julho 6

nina simone

ontem ela me ligou chamando para sair. deduzi que estava só novamente. em sua cabeça, ela tem delineado muito bem o mundo dos acompanhados e dos desacompanhados. normalmente essas duas raças não se falam, só quando decidem entre eles mudar de lado.

muitas vezes paramos em algum lugar e procuramos nos mp3 alguma música da nina simone para dividirmos o fone de ouvido. ela me diz que a nina simone ela só ouve comigo e mais ninguém. achei bonito, mas meio sem sentido.

ontem lhe disse que já ouvi nina simone com outras pessoas. acho que ela ficou magoada. talvez achasse que a nina era algo que tinha de comum entre nós. mas nina simone está além de nós, comentei. ela deve destroçar mais corações além do nosso. deve ser uma missão divina dela.

passei o dia hoje tentando me convencer que talvez tenha sido insensível em não ter algo comum a ela, como ela tinha a nina simone comigo. mas daqui a pouco ela volta para as terras-médias e volta a ser acompanhada.

é bacana ouvir a nina simone acompanhado.

domingo, julho 5

. contador .

é que as histórias deixam a vida mais suportável.

sábado, julho 4

. control .

são dias sem sentido assim que o coração desacelera
e as criaturas adormecidas em mim
resmungam e querem deixar de ser.

domingo, junho 28

sonhos

foi-se a tarde, chega a noite dos sonhos perdidos.
sonho um de cada vez, vou perdendo um de cada vez.
esvaidos que vão sendo pela trajetória do corpo.
a noite ameniza os suores da tarde que passou,
mas quis ficar como uma tarde sonhada.

quarta-feira, junho 24

minha foto do jardim de inverno

todos tem aquela foto fundamental
de um jardim de inverno.
a representação de um tempo,
lugar
ou pessoa
que nos indica nosso próprio calor
a ventadas frias.

e de quando em quando,
voltamos a esta fotografia.
percebemos as qualidades do papel
e das químicas que imprimem a imagem.
uma pequena ação do tempo nos alenta
o quão longe se passou aquele instante.
mas nos arrebata de repente
as dores invernais que fizeram daquela foto de jardim
a foto de jardim de inverno.

depois, guardamos.
e esperamos novas estações
para confundirmos tantos invernos
àquele da fotografia.

e os invernos tiram nossas fotografias
para testemunhar nossas transformações
e ver o que ficou crivado em nossa pele
das suas outras irmãs estações.

domingo, junho 21

. o pequeno príncípe .

assistia a este desenho nas tardes depois da escola. imagina, já naquela época, a ciência das viagens interplanetárias. imaginava também o amor feito uma rosa que fazia desdém. os sonhos podiam ter sentido.

hoje, revendo no youtube, a memória se reinventa. se um dia eu quis ser um pequeno príncipe, não sei dizer. mas contar histórias é algo que sempre quis fazer.

. marcela .

você parece alguém que inventei das muitas pessoas que conheci.

aniversário II

dei-me 3 livros de aniversário: a morfologia do conto maravilhoso de propp; cordinheira de daniel galera e poemas de sylvia plath. fui assistir a "a partida" e respondi um e-mail inesperado.

tentei escrever uma canção, mas não encontrei palheta e não queria dedilhar.

já era tarde, quase outro dia, quando reparei que em meus olhos o outro dia já havia chegado.

aniversário

é uma piscada nos tempos de desaparecimento.

terça-feira, junho 16

. o amor .

lembro-me dela se perdendo absorta no mar
até que percebeu a imensidão dentro dela
e se voltou a quem afoga em si.

domingo, junho 14

. olhos .

às vezes penso em seus olhos,
como quem lembra de uma melodia:
eles atravessam o tempo dos meus sentidos
e na pronfudeza do azul, assovio.

quarta-feira, junho 3

patologia

é que algumas pessoas tem dificuldades para manter a palavra.
promessas somente das coisas que não virão.

terça-feira, junho 2

livro

encontrei um punhado de escritos que poderiam ter entrado no livro... mas acho que a capa está finalizada. em breve, posto.

sexta-feira, maio 29

ana

quando penso na ana lembro-me da cena final de "little women": vou embora de sua casa desencontrado dela.

since

o mundo acaba numa foto.
o mundo começa num beijo.

segunda-feira, maio 25

mariana blues

é o título da publicação. um título antigo para tanta coisa que aconteceu. espero que faça outros sentidos hoje.

acho que foi a mariana que me despertou para os detalhes do feminino. comecei a amar mais as mulheres. deixei como epigrafe do livro um conto do galeano que a própria mariana me enviou. replico aqui:


A Noite / 1

Não consigo dormir.
Tenho uma mulher atravessada entre minhas pálpebras.
Se pudesse, diria a ela que fosse embora;
mas tenho uma mulher atravessada na garganta.

Eduardo Galeano in: O livro dos abraços

msn

ajeito o meu nickname para ficar perto do seu.

sexta-feira, maio 8

caros leitores,

pretendo mandar para impressão uma pequena brochura com alguns textos selecionados deste blog. gostaria de enviar um exemplar aos leitores que resistem e continuam visitando este humilde espaço de histórias. continuo escrevendo muito por causa de vocês do que propriamente por um projeto meu. quem quiser receber, por favor envie o endereço para o meu email:

marcioyonamine@gmail.com

será uma pequena tiragem que distribuirei entre os amigos por ocasião de aniversário. será também uma pequena despedida já que encerrarei as atividades deste blog já tão abandonado.

márcio

p.s. se puderem sugerir textos, agradeço. ;)

quarta-feira, maio 6

. memória fotográfica .

em noites calmas, recolho-me ao laboratório para ampliar fotografias que esqueço durante o dia.

é comum a feitura de alguns testes com pedaços de papel por economia já que a prata em gelatina sobre papel deixou de ser coisa fácil de se conseguir.

ao invés de jogar estes testes foras, eu os guardo por alguma razão desconhecida aproveito-os então como marcadores de página.

e eles permanecem nos livros, mesmo quando termino a leitura, como se estabelecessem morada.

minha memória fragmentada e imperfeita nos livros que li.

às vezes, retomo algumas páginas para pesquisa e me surpreendo com o agora marca página. e fico pensando no todo do qual já fez parte e no todo do qual agora faz.

e agora, quando vou ao laboratório, recolho-me também às lembranças que ainda não me vieram mas que serão reveladas talvez em pedaços.

e talvez em pedaços, como grãos de prata, eu encontre os dias que esqueci e escreva.

terça-feira, maio 5

conversa #02

minha irmã me faz pensar o que estou fazendo aqui.
já perdi tudo que poderia me fazer ficar.
os sonhos? os sonhos já se mudaram há muito tempo.
sou eu que fico achando que a casa cabe gente
mesmo gente já com outras casas para habitar.

-- mas o que vou encontrar lá? pergunto para ela.
-- motivos para não voltar e motivos para voltar.

conversa

minha irmã me disse:
-- vai para inglaterra. o pessoal está te esperando!

domingo, abril 26

mecanismo

observo o mar.
me afogo em pensamentos.
o coração pesado ajuda a afundar.
no ritmo pendular das ondas,
eu refaço as trajetórias
dos amores que se foram.
este também há de ir,
como todas as coisas
que enfrentam o mar.

o mar é esquecimento.

quarta-feira, abril 22

fotologs portugueses

gosto de ficar a navegar pelos fotologs portugueses. é como se houvesse um mundo paralelo com diferenças pontuais. neste mundo inclina-se mais a poesia do que a prosa.

coimbra, setubal, santarém, porto, lisboa. não sei o que significam. deve haver inúmeros portugais também. o que eu procuro nestas fotos? pergunto-me.

como percebo que de alguma forma portugal caminha entre nós, procuro também uma maneira de caminhar pelas ruas das cidades portuguesas e deixar-me ser paralelo às coisas.

terça-feira, abril 21

solidão

acho que ela dá forma tantas formas a sua solidão porque é um jeito de esquecer. mas aí ela se perde na confusão de esquecimentos. então ela me pergunta transtornada:

-- você consegue compreender o que se passa aqui, consegue? é como se houvesse uma cidade cheia de pessoas com inúmeras histórias mas sem ninguém para ouvir. você compreende?

e eu percebo pelo jeito que ela olha para minhas mãos que ela teme que eu compreenda porque compreendendo talvez ela não estivesse mais só.

e ela passaria a ouvir todas as histórias da cidade.

. helix .

percebo que a vida não se repete de modo cíclico, mas espiralar. revejo situações semelhantes, mas inclinadas a outros humores. cada dia que passa a idéia de reencontros me parece bastante absurda. não vemos a mesma pessoa, ela sempre será uma outra que você reconhece por pouco. a outra pessoa dirá que você é o mesmo de sempre embora todas as mudanças.

penso naquelas pessoas que se jogam e que tentam planar em outros momentos deste espiral. depois penso naquelas que conseguiram para depois me ater naquelas que não conseguiram.

penso bastante nas que não conseguiram.

. the universal .

se cada pessoa é um universo, onde estou em mim?

sexta-feira, abril 17

fade out

aos poucos e com moderação, vou desaparecendo.
até que eu me perca nos achados das calçadas.
e que a lembrança de mim seja apenas um suspiro alheio
como quem tosse por causa da infusão da cidade.

domingo, abril 12

relationship

quase não falo com meu coração que meu coração parou de falar.

sábado, abril 11

. floating space .

qual foi o exato momento em que você me deixou passar?
antes de me beijar a testa ou se perder em seu trabalho?
entre estes dois momentos houve um abismo,
perdi meu chão e não soube de mais nada.

assim que souber, toco o chão.

betânia

agora eu tenho uma revisora. ela se chama betânia. não tem qualquer afinidade com as novas regras gramáticas. aliás, não tem nem com as velhas.

mas faz perguntas com bastante propriedade.

- márcio, por que você não vai falar com a moça lá?
- que moça?
- a moça que você fala no seu blog.
- mas não tem moça, são só palavras.
- se só são palavras por que você fica tentando caprichar nas concordâncias? você não é disso.

terça-feira, abril 7

. breathe .

francisca tinha 31 anos e estava morrendo. durante sua vida ela respirou muita saudade e tinha os dedos intoxicados. tudo quanto podia tocar, tocava para que exalasse sentimentos. foi assim desde sempre.

desde o conhecimento da falência de francisca, quase todos os seus conhecidos se afastaram. "preparam o luto", dizia. somente abelardo insistia em visitá-la.

-- por que não desiste de mim querido abelardo? perguntou francisca cheia de serenidade.

abelardo pegou sua mão, sorriu com amor desigual e respondeu.

-- eu nunca vi alguém morrer de saudade, querida francisca. e acho que você também não.

domingo, abril 5

pequena diva

ela morava em uma caixa de contra-baixo.
não emitia quase nenhum som grave.
tentava desta maneira se fazer presente,
aprendendo o formato dos sons
que são mais sentidos pela pele do que pelos ouvidos.

flame

você me encontra quando estou sozinho comigo.
e vai tomando as minhas conversas e as formas de pensar.
diz que todas as mulheres se parecem contigo
e que todos os sotaques são seus.

então me refugio em palavras alheias, braços.
faço-me acompanhado, presto atenção em outras coisas.
ouço músicas que não pertencem ao nosso cíclo.
e falo bastante para evitar sua voz quando me calo.

mas você me queima. porque sozinho costumo acender coisas.
sozinho, seu calor me invade. procuro o frio das bebidas,
as sombras refrescantes, o chuveiro em posição de inverno.

você é um sol engolindo um planeta solitário e distraído
que não sabe mais gravitar.

quinta-feira, abril 2

as cidades

fiquei na cidade somente um dia. havia chegado a noite, hospedei-me em um hotel bem simples. jantei no restaurante a frente. depois, como não era tão tarde resolvi caminhar. cheguei a praça principal e estava cheia. foi uma visão profundamente bucólica de algo que nunca conheci.

sentei-me em um dos disputados bancos. estava esperando um telefonema. estava pela cidade para uma visita surpresa a uma amiga e deixei recado em sua caixa postal. talvez estivesse ausente da cidade, mas não pude evitar de ir e conhecer os seus lugares.

porque tenho mania de guardar detalhes bobos. lá estavam, em frente a praça, as duas salas de cinema que ela havia comentado que sempre exibiam filmes opostos. o gramado a esquerda da igreja, um ponto de encontro. a sorveteria com bolas a preços acessíveis. e o céu estrelado.

ela acabou me ligando pela manhã. passei o dia com ela visitando os lugares. mais a noite, estava na rodoviária para voltar a são paulo. ela se desculpou pelos pequenos causos do dia. o cachorro cego, a poeria da cana de açúcar queimada ao longe, a visita inesperada a um aeroporto.

eu disse que não foi nada. que mais que a cidade, foi sentimental conhecê-la em sua cidade. seus chinelos, a segurança que dirigia, os livros preferidos que não trouxera para são paulo, a escola dos seus amores, o palco de sua estréia.

uma cidade dentro da outra.

quarta-feira, abril 1

. fernanda .

fernanda pedia com certa tensão um fósforo. os presentes reconheciam seu desespero, mas respeitavam as regras do lugar que proibiam que se fumasse.

fernanda tinha problemas com memória. ela, a memória, se utilizava de métodos e critérios próprios para seleção.

mas um fato era de lembrança constante: sua mãe que era costureira de mão cheia e amor. dizia:

- estes fios modernos não se fixam ou entrelaçam com naturalidade. devem ser cauterizados com uma pequena chama.

naquele momento o que fernanda queria era cauterizar parte de sua mochila que havia rasgado para que suas coisas não se perdessem.

heartache

seu felipe tinha 43 anos e era uma pessoa só.

por exigência trabalhista, foi necessária uma visita ao médico.

- o senhor tem um leve problema no coração.
- diga algo que eu não saiba.

terça-feira, março 31

os anos

seu onofre não tinha medo do diabo, embora seu encontro já tenha sido marcado. aconteceria depois de muita dor e pouco sangue. e seria este o preço dos caminhos que escolheu.

só havia uma pessoa, uma mulher, que choraria por ele. ela, seu onofre sabia, estava salva.

ela tinha o nome do amanhecer, hora impossível para o diabo que o próprio revelou a seu onofre em troca de sua alma.

e nas últimas horas da madrugada, ele se levanta e vai sentar na varanda para pensar nos dias de vida e nos anos de morte.

. dora .

a pequena dora observa com atenção o corrego fétido por onde se esvaem as tristezas do bairro. está a lembrar o que seu avô lhe dizia das coisas que se movem:

-- todos vão embora.

e lembra que também seu avô havia ido embora. e que apesar da idade de seus dedos, está ela em um turbilhão de coisas que voltam sem terem partido.

e que talvez ela seja um dos lugares para onde todas as coisas esvaem.

. maia .

havia uma nuvem que se chamava maia. sonhei por anos com sua consistência e por vezes acordei no ar. maia desistiu de mim há alguns anos até que semana passada a encontrei dispersas entre inúmeros focos de tempestades que derramavam pela cidade.

envolveu-me com certo pudor em meu corpo e sussurrou nuvem:

-- agora que te encontrei me refaço.

penetrou em meus cabelos e hidratou meu espírito e nunca mais chorei em vão.

banho

eu beijava suas costas e fiz piada de suas sardas. ela me pegou no canto do olho.
-- tomei banho de noite estrelada.

segunda-feira, março 30

tempo

sempre tive cabelos brancos. um fio aqui, outro acolá. tem gente que acha charmoso. como tenho espelhos ruins e pouca visão periférica, quase não os reparava. todavida, hoje, sobre o travesseiro havia alguns fios. eu os tinha, agora eles caem. nunca havia acontecido de cairem tantos de uma só vez.

abri a janela e os joguei. assim seguem naturalmente o fluxo natural do tempo. e eu os imagino em algum ninho de pássaro ou se predendo em algum cão sem lenço e sem documento.

domingo, março 29

violino no metrô

ele carregava o case com o violino dela em uma mão e na outra a levava a escola. estavam juntos há 6 meses e ele a convencera de voltar a estudar. não tocava naquela maleta havia mais de anos, mas sempre que ela falava sobre a música, tinha olhos marejados. ele então decidiu que ela teria que voltar a estudar.

ela estava com medo. por vezes, perdia a noção da estação por tão absorta que estava. ele a guiava pela cidade sob a terra.

perdi a vista deles em uma baldiação. não sei se ocorreu tudo bem. mas lembro do gesto com que ela pegou o braço dele: ensaiando um dedilhado.

sonhos

sonhei que todos os personagens que já tive, reais ou não, se reuniram para me dar conselhos. havia os que se exaltavam; outros que gesticulavam serenamente um "tudo bem". outros não se preocupavam e ainda havia os que já esperavam o pior.

eu os escutei com atenção, primeiro para me distrair de uma dolência que me atacou nestes dias. depois porque pude ouvir o que havia a seguir quando eu os abandonava a narrativa.

aí eu comecei a contar a minha história. todos me escutavam com atenção porque gostariam de saber quando eles entraram na minha vida.

e chegando aqui, não sabia mais o que dizer.

- então escreva! alguém gritou ao longe. e acordei.

sábado, março 28

falta de sorte

acontece que amor é sorte e a não-correspondência é falta de.
depois cultiva-se o amor, o que não tem nada a ver com sorte.

há maneiras de se estar mais propêncio a sorte,
e outras tantas para a cultivância do amor.

acontece também dos sortudos serem pouco amorosos.
e dos azarados serem bastante.

e há os que nada disso conhecem, sabem ou reconhecem
de tanto amor que há e de sorte que acontece.

ciranda

as cirandas me comovem tal qual violino choroso a beira da desafinação.

. vida .

a gente se desencontra com tantos mapas... e vai se encontrar sem querer em dias nublados.
e a gente lembra mais dos dias nublados do que dos mapas.

. fôlego .

priscila escreveu um longo parágrafo, quase sem pontos e vírgulas, do que havia acontecido consigo naquela manhã. queria que quem lesse também ficasse sem o fôlego que faltou a ela quase perto do almoço.

depois, escreveu versos ritmados para que também soubessem que ela havia encontrado felicidade ao sentar-se em um banco para escrever.

quarta-feira, março 25

car crash

a mulher que olha em pânico me atravessa com seus gritos. sei dos gritos pelo estampido de ar que chega em meu rosto. não escuto coisa alguma. estou deitado e percebo alguém protegendo o meu pescoço. quero retribuir com um gesto de buchecha, mas não consigo me mover.

a multidão de curiosos começa a bloquear a claridade do céu... como o céu está bonito especialmente hoje. tão bonito que dá vontade de chorar, mas me resguardo. alguém está cortando minha camisa e me toca o peito com um cuidado de compaixão. das suas mãos, vejo sangue. acho que é meu. penso se há outros que estão na mesma situação, mas não consigo virar o pescoço.

gostaria de lembrar o que aconteceu, mas há um resquício de tristeza em alguma parte de mim. talvez estivesse muito absorto e tenha causado um acidente. espero não ter ferido mais ninguém. quero recuperar meu último pensamento e começo a me irritar com a dificuldade. há alguns meses esse esquecimento súbido havia se apoderado de mim de forma medicinal. mas agora é uma peça que me faz falta danada.

já posso ver no rosto de alguns as luzes da sirene. não consigo avaliar se foram rápidos, sei que estão ficando intensas. azul, vermelho, azul, vermelho. essa alternância acelera minha mente, começo a ver pessoas que conheci. passam rápidas, quero dizer algo para umas, outras quero apenas um sim. perdi algo, sim, perdi, mas não consigo saber. minha boca está seca, um bombeiro se esforça na simpatia, parece uma pessoa boa. talvez tenha uma familia esperando por ele. deve voltar sempre bastante cansado, mas feliz pelas coisas bonitas que faz.

o que eu tenho feito de bom? elevam-me e estou em movimento. maca. ah, o céu... ele está tão bonito que meu coração dispara. um outro bombeiro corre para me aplicar alguma injeção. tento lhe dizer que não, porque sinto meu coração como se estivesse apaixonado e há muito não o via assim. penso em alguém que vai me fugindo. não vá! me espera!

se eu sair dessa, quero jurar um monte de coisas boas das quais vou me orgulhar. e talvez alguém se orgulhe de mim também. minha cabeça inclina um pouco e sinto a lágrima de um olho cair no outro.

quero chegar logo.

selo

escrevi uma longa carta para minha irmã contando as boas novas.
a quantidade de selos me surpreende: nenhum.
será que ela vai ler com a atenção devida?
será que eu escrevi com a medida do amor?

vida

na rodoviária, há um corredor cercado por ônibus que chegam e outros que partem.
atravesso em um turbilhão de desejos.
chegando no último portão, viro-me o corredor não é o mesmo.

soul

escreva-me um carta contando segredo.
estou preparando uma fogueira.

terça-feira, março 24

amor

prendi a respiração, forçando-me esquecer o que é respirar.

segunda-feira, março 23

broken heart

corações partidos ao som de canções sobre corações partidos.

quarta-feira, março 18

uns versos para jezebel

jez, alguma orelha
escrita para te impressionar.
criava minibiografia
que ajudasse no preparo
e vontade das palavras
a serem ditas.
quem se impressiona
com orelha, jez? você.

a sua mania
de ler tudo entrecortado.
jez, você lê tudo errado,
mas cria outra compreensão.
lado sem lado outrora,
opinião facultativa
agora tão necessária
para os textos perdidos
dos homens encontrados.
jez, você me faz pensar.

escrevo para pensar em você.
jez, sei que você lê quando pode.
e quando pode também avisa
que faltou coragem e persuasão
e sobrou comiseração e dedos.
mas amor ficou no ponto
porque amor é pontual, não é, jez?
amor são todos os pontos
que nos encontramos nos outros
e os outros se encontram
nos nossos furúnculos.
jez, às vezes você tem bom gosto.

agora assine este poema,
porque o que você me enviou
eu já assinei. metade da orelha
é sua, a outra metade fica com
a biografia de alguém pontual.
ah, o amor, jez, a gente deixa
para quando tivermos tempo
de nos encontrar.

marcio e jezebel

segunda-feira, março 16

2 de janeiro

"não beba essa água
tá lisa demais
essa água tem veneno
e veneno não volta atrás.

no barco 2 de janeiro
sentindo muito aflição
aperto do mundo inteiro
esmagando meu coração.

não vá embora
escuta a toada
ando na beira da praia
anel no dedo eu quero um."
(comadre fulozinha)


homem ou máquina, seja quem for a sorte ou perdão, há de se reconhecer aquele que falta. não a metade exata, semente cá igual a semante lá, mas o céu pulverizado que enche os pulmões do qual se separa e volta a se apegar feito os anos, as lembranças.

que a água sem veneno já existiu, isso não tem quem negue ou fira. mas já também vendeu-se em tantas partes antítodo para o veneno do tempo que já se é envenenado antes mesmo de beber. para o antítodo há volta.

homem ou máquina, sorte ou perdão, todos queremos antítodo.

porém, desde que o barco corre o ano, começa o desfiamento do mar. o veneno nos faz sonhar que à deriva talvez corramos o risco de encontrar o que nos falta enquanto enquanto faz tempêro do coração em pilão.

casar na praia é casar com o tempo imenso. é muito romeu e julieta, mas vira mar.

domingo, março 15

a million parachutes

coloquei no ar um backup das coisas que escrevi nos blogues:

www.casa.parachutesfilmes.net

para quem acompanhava o meu antigo blog e gostava, boa oportunidade para reler. para quem nunca viu, uma chance de ler as coisas que me assombravam de 2003 para cá.

eu fico um pouco impressionado como umas coisas mudam radicalmente e outras nem tanto.

quarta-feira, março 11

faster than

datilografava em guardanapos os amores que teve.

segunda-feira, março 9

. thinking about you .

eu gostaria que você soubesse que ando pensando em você esses dias e não consigo avaliar se é por uma questão especial. talvez porque há bastante mulheres de saias neste calor e a sua blusa se parecia muito com uma. e nesta cidade, não é comum que as mulheres usem blusas semelhantes a saias, muito menos saias.

e durante o inverno, cheguei a pensar em você por causa do seu frio peculiar. durante a primavera, foram as flores que me faziam lembrar.

no verão, sosseguei, mas as saias...

domingo, março 8

vida e morte de romana

romana nasceu menor do que poderia ser. mas mesmo assim era uma dobermann e já era temida. quando pequena, brincava com seu dono e tinha apetite moderado. tanto que não comia com desespero, mas aos poucos e com serenidade.

durante a noite, algum rato comeu parte de sua ração enquanto ela dormia e deixou um presente no dia seguinte. romana adoeceu. seu dono a levou a um veterinário que lhe receitou um tratamento longo e dolorido, com injeções dia sim e dia não.

tão pequena, não acharam que sobreviveira. ao final do tratamento, estava fraca mas recuperando.

esta foi o segundo nascimento de romana.

nove anos depois, já cega, romana adoeceu novamente. tinha infecções nas patas e o ouvido saindo pus. enfraquecia-se a cada dia. foram há muitos veterinários, até aquele que lhe salvara a vida, mas nada.

um amigo de seu dono, então, ofereceu para sacrificá-la. não aguentavam vê-la sofrendo. ela tinha 63 anos caninos.

colocaram-na no porta-malas do carro e procuraram por um terreno baldio. dirigiram a noite inteira e só conseguiram parar em um plantão veterinário para que administrassem a morte via injeção.

o veterinário ofereceu algumas estadias de internação a cachorra e combinou-se que se ela ficasse boa, somente seria pago o tempo que ela ficou internada. senão, a injeção seria por conta. o veterinário ainda pediu um remédio vendido em farmacia, remédio de gente, que ele comprou prontamente.

uma semana depois, o dono foi vê-la já com lembranças fotográficas em sua cabeça. talvez tivesse chorado antes, para não precisar fazê-lo na clínica. mas tal foi sua surpresa ao ver romana em pé e respondendo aos seus sons e cheiros.

era o terceiro nascimento de romana. ele a levou para casa e conviveram mais 5 anos.

um noite quente e abafada, ela soltou um uivo forte e tenso. ninguém na casa percebeu, além de seu dono. no dia seguinte, foi chamá-la e não respondeu.

romana viveu 98 anos caninos. nasceu 3 vezes e pode sentir a ofegação de seu dono por duas vezes. sentiu saudades durante uma semana e deixou outras tantas para seu dono.

terça-feira, março 3

. a história das histórias secretas .

quando eu ia contar que beatrice fizera bem ao terminar o namoro, amanda segurou meu braço, impedindo-me. depois aliviou a pressão e pôs a falar a beatrice:

- foi melhor porque ele te amava demasiadamente sem amor.

beatrice sorriu como se o amor fosse justo. e quando se virou, amanda me deu um beijo no rosto em agradecimento.

. diagnóstico .

estava com um sacola de plástica de um laboratório e pensava se comprava na máquina de livros do metrô um pocket sobre diabetes.

segunda-feira, março 2

. na passarela do metrô .

havia dois meninos de tocaia. observavam o andar das pessoas na passarela. de repente, uma mulher correu para pegar o metrô que chegava. via-se ao longe. os meninos correram em sua direção. na catraca:

-- cheguei primeiro!
-- segundo!

faziam graça com as velocidades fragmentadas da cidade.

domingo, março 1

. postcards .

tenho uma coleção de cartões postais. bem verdade, é pequena. não deve passar de 30. mas me é de uma preciosidade impar.

não pela qualidade das fotos que são normalmente turísticas demais. nem pelo texto que é escrito muitas vezes na correria (parece-me que o estrangeiro é muito mais veloz que estas bandas). os selos e carimbos tem sua graça, mas também não me impressionam tanto.

podem pensar que é pela esperança de que eu também possa um dia enviar cartões postais de lugares tão incomuns de mim. de que há todo um mundo lá fora a ser desbravado pelos meus olhos e estes cartões são a prova da materialidade dessa esperança.

e também não é pela lembrança natural. normalmente peço com indelicadeza às pessoas que vão para fora que me envie um postal. e elas por carinho, simpatia, respeito ou amor acabam me enviando.

gosto da minha coleção de cartões postais porque, de alguma forma, elas provam a minha existência perante este vasto mundo. são como testemunhas. mas fazem esta comprovação não de modo óbvio.

como se também não fosse óbvio o que sou.

sábado, fevereiro 28

. guardar .

hoje estou pensando em quantas histórias há por aí. em como os acontecimentos se tornam histórias. seja em memória ou imaginação. gosto de coletar como quem recolhe sementes e flores. algumas nem reconhecemos como histórias, mas com o passar do tempo ela vai se moldando e nasce uma narrativa seja qualquer for a utilidade.

percebi que há um momento da noite em que eu organizo o máximo que a minha memória consegue sustentar. algumas anoto em um caderno que ganhei há anos e está lá para que eu não me esqueça. outras perco na dança do esquecimento.

e imagino, na vida das pessoas, os personagens que são e o que fazem falta.

. coração partido .

assistir a um coração se partindo ainda é das coisas mais difíceis de não se emocionar.
é um navio cujos marinheiros encontraram seu porto e fica deriva ao mar.

segunda-feira, fevereiro 23

. véspera de carnaval .

era véspera de carnaval. eu estava na rodoviárias esperando uma amiga e havia esse homem sentado na minha frente na área de espera. percebia-se quem esperava para ir embora e quem estava esperando alguém.

acho que esse homem estava triste. de quando em quando, livrava-se de uma profunda agonia para se recompor naquele cenário de espera. olhava para o relógio grande pendurado e comparava ao seu relógio e passagem. talvez fosse alguém que nunca tivesse viajado porque sua mala não era grande para que mudasse, nem pequena para que voltasse.

fiquei observando com o canto do olho para que não se sentisse constrangido, mas eu estava muito curioso. então cheguei a conclusão que alguém havia partido seu coração e que talvez tenha sido a primeria vez ou que tenha sido para ele, a última.

enquanto esperava, pensei se ele suportaria até a quarta-feira de cinzas.
e suportando, se teria uma fantasia para o próximo ano.

segunda-feira, fevereiro 16

infância II

eu achava que se você pensava profundamente em uma pessoa, ela seria capaz, de alguma forma, de ouvir. como um chamado torto. porque eu mesmo tinha relances durante o dia de me pegar pensando acidentalmente em alguém.

mas pensando melhor, não acredito que alguém tenha pensado em mim tão profundamente a ponto de me chamar.

domingo, fevereiro 15

infância (tem acento?)

o que lembro de meu colégio é a sensação de que não precisávamos de borracha no outro lado do lápis.

geleiras

mariete estava lendo um livro sobre geleiras como se não existissem mais. parava-me enquanto andávamos para falar sobre o quão potável era a água que formava a geleira, muito mais que as chuvas das quais costumamos nos orgulhar. "a chuva bem ou mal é ácida porque tem gás carbônico", dizia. ela não tinha muita simpatia pelo gás carbônico pelo que entendi.

fiquei pensando que tipo de sede vamos ter no futuro.

Tennesse Williams

"Às vezes me questiono se perdoei minha mãe por ter me ensinado a esperar mais amor e delicadeza do mundo do que eu próprio poderia oferecer."

segunda-feira, fevereiro 9

armadilha da ana

escrevi tanto que agora me vejo tentando ser sincero.

atraso

os seus olhos claros me fizeram perder a hora.
olhava para eles e não queria ir embora.

domingo, fevereiro 8

palavras

acreditamos (temos que acreditar) que as palavras são a ferramenta que nos ajuda a manter a memória. porque o nosso destino do perecível nos despedaça ao esquecimento. mas quanto tolo somos por não desconfiar que são as palavras que estão impregnadas de nós. que elas agem a revelia do que queremos que permaneça.

as palavras nos chantegeiam a nos inventar porque para elas o perecível é também ferramenta. não importa o quanto eu queira me manter específico. as palavras já possuem um desvario que me leva pelo braço.

auteridade

é engraçado que me vendo em outros contextos eu pareço mais comigo.

segunda-feira, fevereiro 2

a hora mágica

moravam naquela casa de esquina uma mulher muito grande e um homem pequeno que se apaixonaram. era muito difícil vê-los juntos pois tinham horários incompatíveis: ela era enfermeira e ele mecânico de precisão. as pessoas diurnas a conheciam, as noturnas, não. o mesmo, ao contrário, para ele.

mas ao contrário do filme "feitiço de áquina", havia uma hora que se encontram, próximo do pôr e nascer do sol.

nestas horas mágicas, quem quisesse, podia assistir no jardim da frente da casa os reencontros da mulher grande e do homem pequeno, todos os dias se conhecendo novamente.

todos que iam para o trabalho e todos que voltavam dele.

quinta-feira, janeiro 29

os vidros do ônibus

estava com sono e acabei encostando a cabeça no vidro. apesar da noite, é a luz do interior do ônibus que desenha os vidros. no reflexo, vi uma moça em um prepicipio de chorar. faltava muito pouco.

era como se os óculos que usava ajudassem a impedir. os lábios tremiam e palpitavam seu medo pela falta de controle. eu pensava que faltava pouco para que ela chegasse em casa e que lá poderia sentir-se melhor em seu desespero.

ela olhava de vez enquando também para o vidro. mas ela não me via. o seu olhar atravessava o reflexo e a cidade. como se além da paisagem estivessem todas as suas almas perdidas e todas que ainda se perderão.

sábado, janeiro 24

novo rumos

Vou imprimir novos rumos
Ao barco agitado que foi minha vida
Fiz minhas velas ao mar
Disse adeus sem chorar
E estou de partida
Todos os anos vividos
São portos perdidos que eu deixo pra trás
Quero viver diferente
Que a sorte da gente
É a gente que faz

Quando a vida nos cansa
E se perde a esperança
O melhor é partir
Ir procurar outros mares
Onde outros olhares nos façam sorrir
Levo no meu coração
Esta triste lição que contigo aprendi
Tu me ensinaste em verdade
Que a felicidade está longe de ti

sempre paulinho da viola.
ana, fuja não do casório!

domingo, janeiro 18

heloísa

o tempo de heloísa passou. quem viu diz que foi dos mais bonitos e cheios de significações. quem não, é bastante surpreendido com os testemunhos muitas vezes acalorados. eu vi parte, o final, em que quase não tinha quem visse e que não é considerado nos livros, se é que há algum escrito sobre heloísa.

sentei-me ao seu lado e perguntei sobre as árvores.

- não sei muito sobre elas. o que me contaram é que é uma boa referência para avaliar o perecível dos nossos corpos e memória já que tempo é uma abstração foda.

- nunca sentiu vontade de subir em uma?

- sim. quando desci dela pela primeira vez de uma.

cloud

faço minhas as palavras das nuvens.

domingo, janeiro 11

quinta-feira, janeiro 8

cartola

cartola quase me faz querer ser mangueirense.

quarta-feira, janeiro 7

tema para rita

li mensagem dela dizendo que finalmente outro ano seu começou. na desconfiança pedi que explicasse porque é bem fácil apontar qualquer mudança de temperatura, humor, sabores e cor como mudança do próprio ano.

-- vou tirar uma foto do ano e te mando.

sábado, janeiro 3

coração

que delicado é o coração antes de partir.