terça-feira, setembro 8

tempo e voz

o homem trouxe café naqueles copos plásticos com tampa. com leite em espuma para ela, puro para ele. sentou-se ao lado dela naquele banco voltado para uma vista deficiente da paisagem que se imagina tão bonita. a mulher acabara um telefonema e estava enviando uma mensagem, provavelmente para seu secretário.

-- um minuto, marcelo.

ele esperou pacientemente. tomou um pequeno gole de seu café. assim que ela terminou, também abriu a tampa de seu copo e com um sorriso de agradecimento também tomou seu gole cumprindo um tratado qualquer sobre cafés em comum.

-- diga, marcelo.

ele pegou sua mão e ela teve uma hesitação. o telefone dela tocou e ela se achou salva. levantou-se e foi para um canto. alguém a chamava com urgência no trabalho. ele compreendeu e apontou o ponto mais próximo de táxi.

-- venha a minha casa semana que vem e conversamos melhor.

ela o abraçou fortemente a medida que achou que pudesse compensar uma falta. satisfeita e aliviada, foi embora.

ele também não se incomodou tanto. teria mais tempo para ensaiar seu pequeno pedido. bebeu um pouco do café que ela havia deixado e começou:

-- gostaria de falar das coisas que tem me atormentado, das minhas inquietações sobre a natureza do mundo. como conversávamos antes. na época que tinhamos incomôdos semelhantes e você me ouvia bem. e eu sabia lhe dizer as coisas com humor...

achou-se tolo. talvez fosse melhor escrever. na certa, ela não leria. não teria tempo. desistiu da idéia. levantou-se para ir embora quando o seu telefone tocou. ela falou baixinho:

-- marcelo, não vai acreditar. o motorista do meu táxi tem a voz igualzinha a sua. ouve só.

e colocou o motorista na linha. ele não concordou que tivessem vozes parecidas, mas achou graça da ligação.

-- marcelo, ele estava contando que plantava café, veja só. por que você não me conta mais as coisas?

-- eu...

-- você é engraçado, tenho saudades suas às vezes.

-- às vezes?

e conversaram até que ela chegasse na empresa. e naquela noite conversaram sobre o que lhes afligia. ela dormiu na casa dele porque o dia seguinte era domingo: dia para se inventar tempos.

2 comentários:

Natalie S. Dowsley disse...

Nooossa!
Sem comentários.

marcela disse...

lindo, lindo, lindo *-*